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SERRA DA CAPIVARA
Por
mais de meio século repousou em berço
esplêndido a teoria arqueológica de que
o homem chegara ao continente americano de doze a quinze
mil anos atrás.
Saindo da Ásia e atravessando a pé o estreito
de Behring, ele teria se espalhado do Alasca para as
Américas. Mas a pré-história pode
ser outra. No final da década de 80, a Missão
Arqueológica Franco-Brasileira, chefiada pela
arqueóloga paulista Niede Guidon, descobriu em
São Raimundo Nonato, sudeste do Piauí,
vestígios dos nossos ancestrais que datam de
até 50 mil anos.
A descoberta, como não poderia deixar de ser,
suscitou uma grande polêmica internacional.
Alguns cientistas consideram insuficientes os dados
até agora apresentados pela equipe binacional.
Uma disputa que só o tempo e a continuidade das
pesquisas poderão resolver.
O cenário dessa controvérsia, que pode
mudar a história do homem americano, é
o Parque Nacional da Serra da Capivara, um lugar de
rara beleza na paisagem árida da caatinga. Sob
a vegetação densa, recortada por canyons
gigantescos e morros de mármore cinza e negro,
existem quilômetros de galerias subterrâneas,
de vários andares, com lagos e fontes naturais.
Nesse mesmo lugar, alguns milhares de anos atrás, nosso
ancestral mais antigo – o homo sapiens –
dividiu o espaço com tatus gigantes, tigres de
dente de sabre e outros animais da megafauna. A Missão
Arqueológica Binacional Franco-Brasileira já
encontrou 340 sítios arqueológicos em
São Raimundo Nonato. São desenhos e utensílios
que contam a história do homem pré-histórico.
A maior parte desses sítios – 70% - está
dentro do parque. O restante nas áreas limítrofes,
aproximadamente dez quilômetros.
Por
onde passou, o homo sapiens deixou vestígios.
Machados de pedra, objetos de cerâmica e mais
um rico acervo de 50 mil peças que estão
sendo decifradas pelos cientistas, para saber como vivia
o homem pré-histórico. Parte dessa história
está contada
nas pinturas rupestres – datadas de 5 mil a 12
mil anos e gravadas por nossos ancestrais nas rochas
que utilizavam como abrigo. São desenhos bem
elaborados, feitos com os dedos e espinhos de cactos,
utilizando tintas de diversas cores, obtidas a partir
da mistura de oxido de ferro e óleo animal.
É uma arte alegre e livre. Repleta de minúcias,
narra a evolução da espécie humana:
Os costumes, a ocupação do espaço,
o crescimento populacional e as modificações
da tecnologia.
O
homem pré histórico promovia rituais místicos,
fazia festas e tinha outros hábitos que perduram
até hoje, embora não sejam exercidos com
a mesma liberdade que eles demonstravam. Pinturas de
oito mil anos, encontradas no Sítio do Pilão,
retratam cenas sexuais, mostrando que o homo sapiens
gostava de praticar jogos amorosos em grupos numerosos
de pessoas.
O Sítio Arqueológico do Boqueirão
da Pedra Furada – o mais antigo da América
– está localizado num terreno árido,
inóspito, cercado pela vegetação
espinhosa da caatinga, povoado por cobras venenosas
e uma infinidade de bichinhos peçonhentos. Água,
só da chuva. Na maior parte do tempo, a temperatura
média é de 40o , sob o incandescente sol
do Nordeste.
Nada entretanto é mais forte que o prazer de
desvendar seus mistérios.
A importância da Serra da Capivara fez a UNESCO
reconhecê-la como Patrimônio Cultural da
Humanidade. |