MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

RIO GURGUEIA ESTÁ AGONIZANDO

(Publicado no Jornal Diário do Povo - 30.03.2009)

Orlando Portela
Para Cidade

O rio Gurguéia está agonizando e se continuar no ritmo atual, não passará apenas de um grotão sujo e sem vida, como já acontece hoje em boa parte dos seus 532 quilômetros, principalmente no período seco que compreende os meses de julho a outubro.
Nesta época do ano, quando o rio ganha uma sobrevida por causa da água que desce desde as suas nascentes até desembocar no rio Parnaíba, no município de Floriano, outros fatores surgem para preocupar os ambientalistas e as famílias que ainda garantem a sobrevivência do que o rio pode oferecer.
Alguns destes fatores são os desmatamentos indiscriminados nas suas margens e até mesmo a instalação de caieiras para a fabricação de carvão. Estas caieiras estão instaladas nas margens do rio e usam a lenha da vegetação nativa da bacia do Gurguéia como matéria prima do carvão.
Elas são vistas de longe no município de Jerumenha, na região de Floriano. Quem passa numa ponte sobre o rio, na BR-343, não pode deixar de notar grandes tufos de fumaça nas margens do rio e no meio da vegetação, que nesta época ainda está bastante verde.
Apesar de ser ainda uma época de muita chuva, em grande parte do rio ainda se observa que a água que desce é insuficiente para cobrir todo o seu canal, numa mostra inequívoca de que a degradação destrói o rio lentamente.
"Em outros tempos o rio ficava mais cheio e tinha até mais peixes", afirma o estudante Renan de Sousa Gomes, 20 anos, residente no Centro de Jerumenha, que fica a menos de cinco quilômetros da ponte na BR-343, observando algumas pessoas pescando abaixo no rio com tarrafas.
O rio Gurguéia é o maior afluente do rio Parnaíba pelo lado direito, nasce no município de Corrente, na cota de 500 metros, entre as serras de Alagoinhas e Santa Maria. No trecho inicial, o rio é intermitente e se torna perene a partir do quilômetro 82. O rio é alimentado por poucos afluentes, em geral temporários, o que não impede a regularidade do regime na maior parte da calha principal. Entre os principais afluentes estão os rios: Paraim, Curimatá, Fundo, Corrente, Canhoto e Esfolado e os riachos da Tábua e de Santana.
Em 19 de julho de 2006, o Governo do Estado chegou a anun-ciar que o Fundo Nacional de Meio Ambiente(FNMA) havia aprovado um projeto cujo objetivo era de recuperar as nascentes e a conservação da mata ciliar da Bacia do Rio Gurguéia. O projeto, de autoria da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, foi elaborado tendo em vista o alto índice de degradação ambiental existente no rio que corresponde a cerca de 19% da área total do Estado, sendo a segunda maior bacia inserida no bioma cerrado.
Técnicos da Semar passaram mais de dois meses elaborando o projeto que foi aprovado pelo Fundo Nacional, e pela primeira vez manifestou interesse em aprovar este tipo de proposta no Piauí.
Conforme a divulgação da época, na elaboração do projeto foram levadas em conta as atividades econômicas desenvolvidas na Bacia do Gurguéia e que ao longo dos anos vêm ocasionando grandes danos ambientais, colocando em risco ativos ambientais estratégicos importantes, como os rios, riachos, brejos que alimentam a bacia, além do solo, a vegetação e a mata ciliar.
O projeto mostrou que a Ba-cia abrange, total ou parcialmente, 33 municípios, entre eles: Cristalândia do Piauí, Corrente, Sebastião Barros, Parnaguá, Júlio Borges, Gilbués, Curimatá, São Gonçalo do Gurguéia, Bom Jesus, Guaribas, Cristino Castro, Eliseu Martins, Uruçuí, Manoel Emídio, Colônia do Gurguéia, Jerumenha, Canto do Buriti, Monte Alegre do Piauí, Avelino Lopes, Morro Cabeça no Tempo, Santa Luz, Currais, Riacho Frio, Bertolínia e Palmeiras do Piauí e reconhecia que ao longo dos anos, vem sendo explorada de forma predatória, face ao modelo de desenvolvimento econômico adotado nesta região, que prioriza a utilização dos recursos naturais sem preocupação com sua sus-tentabilidade, mas após esta divulgação, o Governo nada mais informou sobre o que foi feito para tentar salvar o rio, mas a julgar pelas condições hoje em que este encontra o rio, pouco coisa deve ter sido feita.

Rio é fonte de lazer e aventura na região
Mesmo na situação caótica em que se encontra, o rio Gurguéia ainda consegue oferecer um pouco de aventura e diversão aos ribeirinhos, mas só nesta época do ano, quando ainda há água descendo pelo seu leito.
Na ponte sobre o rio, na BR-343, uma das diversões favoritas dos jovens moradores de Jerumenha é pular do parapeito nas águas a uma altura aproximada de 12 metros. Um dos que se arriscam na brincadeira praticamente todos os dias é o estudante Renan Gomes de Sousa.
Montado em uma bicicleta ele chega cedo ao local e, após analisar a situação das águas, sobe no parapeito e se atira dentro do rio. Nem mesmo os fios de alta tensão que passam um pouco abaixo da ponte e que levam perigo a quem pula, são capazes de fazer o estudante mudar de idéia.
"Estou acostumado, pois pulo regularmente daqui de cima e seu desviar dos fios", diz Renan, antes de se atirar em pé sobre as águas e cair próximo a umas árvores dentro do rio, onde a possibilidade da existência de um pedaço de madeira (toco) é muito grande. Ao sair, ele confessa que todas às vezes, devido a velocidade que desce e ao seu peso, chega a tocar com os pés no fundo do rio, mas nada que seja capaz de amedrontá-lo.

 

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