![]() ![]() |
|
MATÉRIA
SOBRE O GURGUÉIA |
|
JESUALDO É EMPOSSADO NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS
Em concorrida solenidade realizada dia 06/08/2010, no Rio Poty Hotel, o escritor Jesualdo Cavalcanti Barros, presidente do CEDEG, foi empossado na cadeira nº 3 da Academia Piauiense de Letras. O novo imortal, que foi eleito por unanimidade em assembléia geral ocorrida em 22 de maio, foi saudado pelo acadêmico Oton Mário José Lustosa Torres, em nome de seus pares.
DISCURSO DO ACADÊMICO JESUALDO CAVALCANTI EM SUA POSSE NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS
Honestamente, o Gurgueia não deve nutrir queixas desta Academia. Pois sou honrosamente recebido nesta sessão solene presidida por um gurgueiano – o acadêmico Reginaldo Miranda da Silva – e em que vai falar por todos outro gurgueiano – o acadêmico Oton Mário José Lustosa Torres. Se não bastasse, trata-se, embora ainda jovens, de dois expoentes da nova geração de intelectuais do Piauí e, por títulos vários, justos credores da minha e da admiração de todos. Como se fora um resgate histórico, é bom lembrar que Oton, que hoje aniversaria e deixou as comemorações familiares para nos prestigiar, o que muito agradeço, é filho da matriz dos sertões de Parnaguá, enquanto que Reginaldo tem o umbigo enterrado lá no antigo Lugar da Senhora, que os admiradores do coronel Bertolino Alves e Rocha desmembraram da velha Jerumenha para formar o atual município de Bertolínia. Parnaguá e Jerumenha, como sabemos, foram os dois primeiros municípios que nosso primeiro governador, João Pereira Caldas, instalou, pessoalmente, nos idos de 1762, naqueles confins onde começou o Piauí. Primeiro, inaugurou a vila mais distante, a de Parnaguá, dia 3 de junho; e depois, já na volta, a de Jerumenha, a 22. Oeiras, a capital, era então o único município e sediava a única comarca existente na recém-instalada Capitania de São José do Piauí. Caldas, viajando a cavalo, deixara a capital a 8 de maio daquele remoto ano e só a ela retornaria cerca de dois meses depois, após abrir toscos caminhos por caatingas e chapadões desconhecidos, vencendo dificuldades de toda ordem. Romper aqueles confins não era tarefa fácil. Exigia sacrifícios e determinação. Tanto que os governantes piauienses, como que, contrariando José Américo de Almeida, tivessem esquecido o caminho de volta, demoraram nada menos de 191 anos para revisitá-los. Pasmem, pois a segunda visita só se daria em 1953! Fê-la o então governador Pedro Freitas (por sinal, tio-avô de nosso colega acadêmico Hugo Napoleão), quando esteve em Corrente, viajando pelo moderno transporte da época – o jipe. Eu, menino de calças curtas, o vi caminhando pelas ruas esburacadas de minha cidade, cigarro de palha ao bico, na maior informalidade, homem simples e bom que era. Antes, invertendo o trajeto palmilhado por Caldas, passara por Jerumenha para participar da comemoração do aniversário de fundação do município e prestigiar a conferência, alusiva à data, do acadêmico Artur de Araújo Passos, vereador de Teresina e ilustre filho da terra. A essas festividades comparecera luzida comitiva do Centro de Estudos Piauienses, tendo à frente seu presidente – o jovem intelectual e prefeito de Campo Maior, o hoje acadêmico Raimundo Nonato Monteiro de Santana – já àquela época mestre dedicado à missão de pensar o Piauí e fazer o Piauí pensar-se também. Pois bem. Apesar do isolamento a que foram submetidos por quase dois séculos, os gurgueianos jamais deixaram de acorrer ao chamamento do Piauí e da Pátria, nos seus momentos mais graves. Assim é que, “nos tempos críticos de 1823”, marchou de Parnaguá, para lutar pela Independência, meu tetravô, o juiz ordinário da vila e capitão do regimento de cavalaria de milícias Tibúrcio José de Borges. Comandava 148 cavalarianos, “com cavalgaduras, matalotagens e dinheiros” por ele custeados e não reembolsados pelo governo (aliás, como sempre ocorre!), conforme requerimento que dirigiu ao presidente da Província, João José Guimarães e Silva, em 1830. Só ensarilhou as armas quando assinou a ata de capitulação do major Fidié na vila maranhense de Caxias. Rico fazendeiro que era, perdeu a fortuna, é verdade, mas ganhou o galardão: foi promovido a major (sargento-mor, à época), sob o fundamento de que fora “o único oficial desse regimento que marchou voluntariamente para a guerra”, conforme anota Abdias Neves. Não menos heroica foi a empreitada do tenente-coronel José Lustosa da Cunha, futuro barão de Santa Filomena, que desceu o Parnaíba em balsas de talos de buriti, em 1865, comandando o 2º corpo de voluntários da Pátria, composto de mais de 200 combatentes, depois ampliado com outros tantos. Fora organizado nas vilas de Parnaguá, Bom Jesus e Jerumenha e nos então arraiais do Corrente e Santa Filomena. Só retornariam com a completa vitória brasileira nos campos do Paraguai, após combaterem em todas as frentes, durante cinco anos de carnificina. Terminada a guerra, seriam recebidos pessoalmente pelo imperador dom Pedro II, no Arsenal da Marinha no Rio de Janeiro, apinhado de piauienses orgulhosos de seus feitos, com esta saudação calorosa e consagradora: “Senhor comandante de voluntários da Pátria! Aceitai este abraço para vós e vossos camaradas! A glória coroou vosso heroísmo! Vinde receber as aclamações de vossos compatriotas!” Desembarcariam em Teresina, a bordo do vapor Piauí, em 1870, menos de 150 daqueles bravos – os salvados das “charqueadas de López” – como insinuava David Caldas no seu jornal O Amigo do Povo. Se me permitem continuar a navegar por esses mares, diria mais que foi dos sertões de Parnaguá que saiu João Lustosa da Cunha Paranaguá, depois Visconde e Marquês de Paranaguá, para brilhar na corte do Segundo Império ao ocupar praticamente todos os ministérios e a presidência do Conselho de Ministros, tornando-se, com toda justiça, o mais preeminente piauiense de todas as eras. No tocante a esta Academia, inúmeros foram os gurgueianos que por aqui passaram, deixando-nos, em marcas indeléveis, o brilho de sua cultura, inteligência e talento, a exemplo de Adelmar Soares da Rocha, Amélia de Freitas Bevilácqua (a esposa do jurista Clóvis Bevilácqua), Artur de Araújo Passos, Esmaragdo de Freitas e Sousa, João Crisóstomo da Rocha Cabral, José Miguel de Matos, José Patrício Franco e Pedro Borges da Silva. Com incontido orgulho, ocorre-me citar outros gurgueianos, que, portando idêntica bagagem, presentemente ilustram a Casa de Lucídio Freitas, como Fides Angélica de Castro Veloso Mendes Omatti, Herculano Moraes da Silva Filho, Humberto Soares Guimarães, Jônathas de Barros Nunes, Pedro da Silva Ribeiro e William Palha Dias. Um parêntese para uma pergunta que não pode calar: então, por que duvidar de nossa capacidade de construir o Estado do Gurgueia? Ante a presença aqui de tantos filhos daquelas bandas, julgo da maior justiça reconhecer que nossa Academia não apenas cumpre a relevante missão de proteger e difundir as boas letras, unindo a tradição e a invenção na cultura piauiense, como acentua o mestre Manoel Paulo Nunes. Vai além ao praticar a boa cultura, que é a cultura democrática, justo aquela que, abominando preconceitos para valorizar o mérito, faz o politicamente correto, isto é, faz a inclusão de pessoas com profundo respeito a suas diversidades. Sou, portanto, outro filho do Gurgueia que aqui aporta, embora sem o brilho dos que me antecederam na chegança. No fundo, “um garoto vindo dos confins do Piauí fazer história na capital”, no dizer do instigante Zózimo Tavares. Por sinal, o primeiro membro desta Academia nascido no Corrente, a pérola daqueles antigos sertões de Parnaguá, cantada pelo telurismo singelo do poeta correntino Eudalton Teles: Num recanto abandonado Lá do sul do meu Estado Existe um lugar feliz: Meu querido Corrente, Que embora modestamente, É o mais belo do País. E aqui chego nem cedo nem tarde. Como na imagem bíblica, se há um tempo para tudo sob o sol, diria que chego no momento próprio, na ocasião oportuna. Porque, ao contrário do filho pródigo, não dissipei o patrimônio que meus pais – Sebastião Barros e Iracema Cavalcanti – me legaram, voltado, basicamente, para os valores do espírito. Por certo, não bafejado pela precocidade de nossa decana Nerina Castelo Branco, aqui chegada na flor de seus 32 anos, precocidade, aliás, só superada por Lucídio Freitas, nosso patrono. Nem pelas vivências do sempre jovem Júlio Romão da Silva, empossado acadêmico aos 73 anos. Mas, filosofando com Chopra e Manfredi Cerqueira, que as pessoas só ficam velhas quando param de crescer, é que bato às portas da Academia ainda a tempo e com tempo de alimentar sonhos e cometer ousadias, missão historicamente reservada aos que teimam em resistir à mesmice dos tempos. Diria mais que a tempo e com tempo de poder prestar meus modestos serviços à Academia, ao lado da Socorro, a fiel companheira de todos os momentos e, assim, parceira tanto de desilusões quanto de conquistas, esperanças e utopias, com o despojamento, a coragem para lutar e a disposição de trabalho que Deus nos deu e mantém com muita proficiência. Ao lado também de nossos filhos Jesualdo, Juliana e Marina, da nora Flávia, dos genros Renato Guimarães e Valério Mendes e das netinhas Alice Maria, Mariana, Luíza e Laura, esta que acaba de nascer. E, mais do que tudo, a tempo e com tempo de conviver mais de perto com 39 figuras exponenciais da cultura piauiense, em suas andanças pelos múltiplos caminhos das letras, da pesquisa e do saber. Pois bem. Quem se achega a tantos valores e, o que é mais importante, por via de uma eleição marcada pela unanimidade de votos livremente concedidos, não pode exibir outra pretensão que não a de agradecer, servindo. Sou, portanto, profundamente grato a todas as acadêmicas e a todos os acadêmicos que materializaram o ingresso que ora faço na Academia. E só um compromisso me anima: o de procurar dignificar, em todos os momentos, por pensamentos, palavras e ações, tão calorosa manifestação de confiança e generosidade. Sou também profundamente grato a todos os que nos honram com suas presenças, muitos dos quais provindos de longe. Nascido em Teresina a 4 de agosto de 1920, João Gabriel Baptista, a quem tenho a honra de suceder nesta Academia, era casado com Maria Jesus de Carvalho Baptista, que lhe sobrevive. Ao falecer a 20 de março último, deixou sete filhos: cinco seguiram as pegadas profissionais do pai, sendo três engenheiros civis (Ernesto José, Fernando Luiz e Orlando Geraldo) e duas professoras (Maria do Socorro e Elisabeth), além da contabilista Aracy e do médico Mário Benjamin. Passara a integrar os quadros desta Academia desde 9 de janeiro de 1978, ocupando a cadeira 3, que tem o padre Joaquim Sampaio Castelo Branco por patrono e os acadêmicos Fenelon Ferreira Castelo Branco e Cromwell Barbosa de Carvalho como ocupantes. Aqui exerceria variados cargos de sua direção, os quais desempenhou com entusiasmo e competência. Formado engenheiro civil pela Escola Politécnica da Bahia, em 1946, logo assumiria, no Estado-berço, os postos de comando mais importantes em sua época e área de atuação, inclusive a direção geral do Departamento de Estradas de Rodagem e a então Secretaria de Estado de Viação, Obras Públicas, Agricultura, Indústria e Comércio. Para se aquilatar a amplitude do campo funcional dessa secretaria de nome quilométrico, basta salientar que, no organograma atual da administração pública do Estado, suas antigas funções acham-se distribuídas por nada menos de sete secretarias, afora órgãos menores. Professor ele foi a vida inteira. Professor do ensino secundário em colégios públicos e privados de Teresina, lecionando Geografia, Física, Química e Matemática. Professor de Geografia, Cartografia e Etnografia da antiga Faculdade Católica de Filosofia e da Universidade Federal do Piauí. Aluno do velho Liceu Piauiense, conheci-o nos idos de 1958. Ensinava Geografia, após concurso público em que defendera tese, em 1951, sob o título Vulcões no Brasil. Tempos gloriosos aqueles. Professor do Liceu ou da Escola Normal Antonino Freire era catedrático, isto é, falava de cátedra, eis que portador de amplo conhecimento da disciplina que lecionava. Se homem, quase sempre usava paletó e gravata em sala de aula. Mas não era respeitado apenas pela aparência indumentária. Tinha postura de formador de homens e condutor de ideias. Irradiava uma certa aura de ciência, técnica, conhecimento, sabedoria. E sabem por que portava toda essa autoridade moral? Pelo salário, está claro que não: o professor nesta terra nunca foi remunerado com justiça, nem agora nem outrora! Revela, por exemplo, padre Domingos da Conceição, nosso representante nas cortes constituintes de Portugal, em 1822, que já àquela época ao professor do Piauí era atribuído um salário de 60 mil réis anuais, enquanto um feitor de escravos percebia 200 mil réis, contando ainda com casa e mesa. Mas, a despeito do baixo salário e de outras condições negativas, toda essa autoridade moral, minhas senhoras e meus senhores, emanava de uma razão cristalina: o mérito. O professor conquistava a cadeira mediante concurso público, prestado perante banca examinadora competente, tendo como ponto alto a defesa da tese que escrevera, como o fez João Gabriel Baptista. A sociedade teresinense acompanhava atentamente todos os lances do concurso. Fazia-se presente. Palpitava, opinava, torcia. Já se vê: não eram momentos apenas de exteriorização da ciência e da cultura. Eram também momentos de manifestação e, mais que isso, de valorização da cidadania. Por isso deixaram marcas profundas, nítidas, inesquecíveis na memória popular. Desse modo, não é estranhável que o governo estadual oferecesse ensino de qualidade. Sobretudo, sabendo-se que em sua tessitura pontificaram, em diferentes épocas, muitos dos príncipes desta Academia, tais como Abdias Neves, Arimatéa Tito Filho, Camillo Filho, Celso Barros Coelho, Cristino Castelo Branco, David Caldas, Higino Cunha, Lucídio Freitas, Manoel Paulo Nunes, Martins Napoleão, Odilon Nunes, padre Joaquim Chaves, Wilson Brandão. Que diferença, meu Deus! Pena que “tiranias do tempo” houvessem impedido que Clodoaldo Freitas, príncipe-fundador desta Academia, lá ensinasse um pouco mais do muito que sabia. Não é verdade, Teresinha Queiroz? Fonseca Neto certifica que a obra especializada de João Gabriel Baptista foi feita ao vivo, na emoção do mestre em cena, suando a camisa, em interações plenas com seu discipulado. E sentencia: “Obra, até aqui, única.” Em arrimo dessa sentença lapidar, vai buscar o testemunho de Cineas Santos, para quem “se não fosse João Gabriel, o Piauí não teria Geografia.” O homem das confusões polêmicas (quem diria!), desta vez logrou a unanimidade. Com efeito, temos nessa síntese a maior homenagem que se poderia tributar ao engenheiro, professor e acadêmico João Gabriel Baptista, que foi, ademais, um pesquisador, um geógrafo, um cientista verdadeiro. Que jamais se limitou a burilar achados já conhecidos e repisados. Daí a observação de Camillo Filho, em prefácio da Geografia Física do Piauí, que lançou em 1975, posteriormente ampliada e reeditada em dois volumes: “não se trata de mero trabalho de coleta de dados e informações: há pesquisas e trabalho de campo, indispensáveis a uma obra deste vulto.” Chama atenção o empenho de João Gabriel Baptista em revelar a geografia piauiense, tanto física quanto humana. Visando a sistematizar os estudos que pacientemente realizara durante décadas, publicou outras obras sobre o assunto: Resumo Corográfico do Estado do Piauí (1971), A Origem do Rio Parnaíba (1987) e Mapas Geohistóricos do Piauí (1987). Antes publicara Nascentes de um rio (1971). Contagiava a todos seu entusiasmo em aprofundar pesquisas sobre o tema, a ponto de embrenhar-se, ao lado de Noé Mendes de Oliveira e professores outros da Universidade Federal do Piauí, em 1977, pelas caatingas e chapadões do extremo sul em busca das nascentes do Parnaíba. Só parou quando, topando nas fraldas da Chapada das Mangabeiras, onde, segundo Oton Lustosa, “o vento faz a curva”, conseguiu assentar, de uma vez por todas, que o caudal parnaibano tem origem realmente no riacho Água Quente e não no Corriola, como queria o alemão Gustavo Dodt. Não menos contagiante foi sua militância a favor da preservação do Velho Monge, ao participar de todos os movimentos tendentes a denunciar sua degradação e a fomentar ações capazes de devolver-lhe a pujança de outrora. Não sem razão, clamaria em relatório denunciador: se medidas práticas, urgentes, não fossem tomadas, o Parnaíba se tornaria “um rio periódico” e aquela imensa área do sul do Piauí, “um grande deserto em futuro próximo.” Menção especial merece sua última obra – Etno-história Indígena Piauiense (1994) – que reconstitui o brutal processo de aniquilamento das populações nativas, na chamada “guerra aos bárbaros”, que o historiador Reginaldo Miranda nominou genericamente de “indiocídio”. Por exemplo, instruções especiais do governador João Pereira Caldas, de 1763, ao comandante da vila de Parnaguá, não deixavam dúvidas quanto ao destino reservado aos índios Gurgueias, Acaroás e Timbiras: recomendavam “castigar a ferro e a fogo (...) atacando todas as povoações que encontrar das ditas nações, e reduzindo-as a cinzas, depois de conquistadas.” O mestre Manoel Paulo Nunes, em prefácio da reedição de 2009, chega a afirmar que “nem Pizarro, talvez, no México, tenha empreendido tamanha guerra de extermínio contra um povo indefeso...” É triste saber que, nesse holocausto, o Piauí tenha conquistado uma primazia nada dignificadora de sua bela história: nas palavras da historiadora Claudete Miranda Dias, “foi o último Estado a ser colonizado no Brasil, e foi o primeiro a acabar com os índios”. Que lástima, bradaria Deoclécio Dantas! Doutrina o mestre Celso Barros Coelho que “o escritor vive na sua obra”. Esta fala por ele, ele ensina através dela. Eis aí o real sentido da imortalidade: mesmo fisicamente morto, continuar ensinando aos vivos. Esse o legado de João Gabriel Baptista que nos incumbe preservar. Palmas para ele! Muito obrigado! * * * * * * * * * * * * * * DISCURSO DE RECEPÇÃO AO ESCRITOR JESUALDO CAVALCANTI, PROFERIDO PELO ACADÊMICO OTON LUSTOSA Quando, a cinco de abril de 2001, em festiva noite de posse, tomei assento na cadeira cinco deste Sodalício, entre outras tantas palavras que pronunciei no discurso mais importante de minha vida, me demorei em duas passagens telúricas, que agora recordo. Eis a primeira, dizia eu: "Vejo-me na minha amada cidade de Parnaguá... Entre a serra encantadora e a lagoa encantada – imensa, de águas róseas maretadas, onde tem morada o curumim enjeitado filho de Miridan. Infante, um tanto acanhado, na casa do avô octogenário, sob os cuidados das tias, em meio à corriola dos primos citadinos, atilados, peraltas... Que chupavam picolés e pirulitos, atiravam de baladeiras, ajudavam de coroinhas, fumavam cigarros mansos, aperreavam as meninas na pracinha da igreja e faziam indecências nos escondidos dos quintais.[...]". Ponho reticências no texto e já relembro a segunda passagem daquela emocionante elocução: "Nas ruas da querida cidade de Corrente curto toda a minha adolescência e o início de minha juventude com os mergulhos no meu rio de águas lépidas, barrentas, com seu perau traiçoeiro e suas aconchegantes coroas; sob o verde das copas das mangueiras e a sentinela de esguios coqueiros da praia. Recordo as tardes alegres das peladas no campinho do Instituto Batista Correntino e as gloriosas manhãs setembrinas sob o rufo dos tambores e os solos dos clarins em homenagem à Pátria Amada. Miúdo, envergando o brim da fatiota de gala, no adro da Matriz da Conceição, interpretava o Castro Alves e o Casimiro de Abreu. Choviam as palmas [...]. "Belos tempos, belos sonhos."E assim se explica, senhoras e senhores, o motivo pelo qual aqui estou a falar em nome da Academia Piauiense de Letras, na honrosa missão de saudar o novel acadêmico JESUALDO CAVALCANTI BARROS. Com muito orgulho me divido. Pertenço às duas cidades: Parnaguá e Corrente! JESUALDO, um filho de Corrente, toma assento hoje na cadeira número três na Casa de Lucídio Freitas e esta é uma oportunidade singular para que eu, cumprindo com muita honra uma missão acadêmica, possa, ao mesmo tempo, exteriorizar a minha imensa alegria pela ascensão de um conterrâneo ao cenáculo maior das letras piauienses. Entre a eleição e a posse, já tendo eu sido convidado e designado para proferir esta oração, numa de nossas sessões pelo mês de junho, o acadêmico MANOEL PAULO NUNES, ex-presidente desta Casa por dois mandatos, recordista em número de discursos de recepção aqui proferidos, dizia-me com entusiástica expectativa que seria esta uma noite parnaguaense! Eis o alcance de suas palavras. Uma das razões da chegada de JESUALDO a esta Casa é o fato de ter ele enriquecido a bibliografia historiográfica piauiense com a aplaudida obra Memória dos Confins, onde retrata "a saga de vaqueiros, heróis e jagunços nos ermos sertões onde começou o Piauí." E estes sertões são o vasto mundo histórico do Parnaguá e do Gurgueia. Da análise minuciosa das obras de PEREIRA DE ALENCASTRE, de CARLOS EUGÊNIO PORTO, de AGENOR MIRANDA, de BARBOSA LIMA SOBRINHO, de MONIZ BANDEIRA e das pesquisas em papéis antiquíssimos da Casa Anísio Brito, JESUALDO CAVALCANTI BARROS, cartesianamente, demonstra que os fazendeiros da Casa da Torre ingressaram em solo piauiense após subirem cursos d’água de rios baianos e em seguida descerem em busca das vertentes do Riacho Fresco, do lago de Parnaguá e das vazantes do Paraim e do Gurgueia. Aí nessa imensidão de caatingas, chapadas e vales; tabuleiros, veredas e várzeas foram concedidas as primeiras sesmarias e sitiadas as primeiras fazendas. Depois é que os conquistadores seguiram o rolar das águas e o sopro dos ventos em busca dos vales do Mocha, do Piauí, do Itaim, do Canindé e do Parnaíba até alcançarem a barra do Poti e daí em diante rumo ao Atlântico. Enfático, o autor de Memória dos Confins afirma: "O Piauí começou, sem dúvida, pelo Gurgueia. E não poderia ser outra a conclusão – diz ele -, posto que os dois primeiros atos oficiais pertinentes à conquista têm relação direta com esse vale: o primeiro, como vimos, foi a entrada à aldeia dos índios gurgueias; o segundo, diz respeito à concessão das primeiras sesmarias em 1676, todas localizadas na região."O livro Memória dos Confins, publicado em 2005, atualmente em 2ª. edição datada de 2007, tem recebido aplausos de muitos e variados leitores e o merecido reconhecimento da crítica especializada. A seu respeito destaco as palavras do historiador e acadêmico FONSECA NETO: "Não devem sobreviver dúvidas: é a melhor porque mais cuidadosa contribuição que aqueles sertões ganharam até hoje no sentido de desvendar sua história, que é a história dos sertões de dentro que se vão alevantando em maciço para virar planalto mais à frente." E as do acadêmico M. PAULO NUNES, crítico literário de escol e defensor intransigente da cultura e da historiografia piauienses, que proclama: "Livro revelador e rico em informação documental, fruto do trabalho persistente deste incansável pesquisador, por certo haverá de ficar como das mais seguras contribuições à nossa História, realizada com método e apoio documental. Parabéns ao dileto amigo e historiador de peso pela obra realizada em favor do Piauí e de seu povo."Em sentido amplo, a obra do novel acadêmico, entretanto, não se resume apenas ao grande feito da publicação do livro Memória dos Confins, que é esmeradamente bem escrito, rico, documentado. De uma apurada reflexão sobre a sua trajetória de vida, extrai-se a conclusão de que a matéria-prima do seu labor, em todas as horas, foi a palavra. Como que demarcando o início de sua vida pública, com quinze anos saía da adolescência escrevendo e publicando num jornalzinho do grêmio estudantil o seu primeiro texto. Reivindicava a mudança da sede da Capital da República para o Planalto Central Goiano. Para um menino de quinze anos era perfeitamente factível o atendimento ao seu pleito. Não se decepcionou. O Presidente JUSCELINO KUBITSCHECK DE OLIVEIRA, que cultuava a virtude de ouvir e anotar as reivindicações dos anônimos do povo, dali a cinco anos inauguraria a deslumbrante Brasília, bem no seio do Planalto Central. O livro Tempo de Contar conta tais passagens da vida do intelectual e tribuno JESUALDO CAVALCANTI BARROS. Na capa, que exibe um fundo branco de paz e nele se carimbam uma tarja vermelha de sangue e uma nódoa cor de chumbo da pisada de um coturno militar, lê-se o subtítulo: "O que vi e sofri nos idos de 1964." A vinte e sete de dezembro de 1957, deixando para trás Goiânia, como deixara em 1954 a fazenda Malhada e a cidade de Corrente, desembarca em Teresina o décimo primeiro filho – de uma prole de dezesseis – de SEBASTIÃO DE SOUZA BARROS e IRACEMA CAVALCANTE BARROS. Estuda, trabalha, defende suas ideias, se faz ouvido e seguido por alguns. Dentro em pouco era líder entre os estudantes do Liceu e das demais escolas da capital piauiense. Da luta reivindicatória estudantil emerge vereador, eleito em 1962, com 22 anos de idade e 448 votos. Tido por inimigo do Golpe Militar de 1964, é preso e cassado. "Solto, mas não livre" – como ele próprio diz –, deixou nos anais do DOPS a ficha e a pecha de comunista. Instado por familiares e amigos, teve de fechar a banca de advocacia e se entregar à política partidária. Impossível aqui, nesta exígua fração de tempo, descrever o conjunto de suas realizações. Não poderei, entretanto, por mera economia de tempo e seleção de temas, excluir desta fala acadêmica, três destaques da carreira parlamentar de JESUALDO CAVALCANTI BARROS: sua obstinação pela difusão e preservação da cultura e da história piauienses, pela expansão do ensino universitário e pela criação do Estado do Gurgueia. Como gestor público, entre outros feitos, ergueu Casas de Cultura e Turismo, concorreu decisivamente para a aquisição e doação à Academia Piauiense de Letras do prédio onde funciona a sua sede e firmou convênios para recolhimento de documentos históricos ao Arquivo Público estadual. Como parlamentar, reivindicou e concretizou a implantação de uma Universidade no sul do Piauí, mais tarde encampada pela UESPI, cujo campus, na cidade de Corrente, recebe atualmente o seu nome. Quanto ao Estado do Gurgueia, bradou no Congresso Nacional e deixou ali a ideia corporificada nos anais da Casa. Com o propósito de fazer ver aos congressistas e convencer piauienses, sobre este tema escreveu livros e fundou o CEDEG – Centro de Estudos e Debates do Gurgueia. Aqui mesmo na Casa de Lucídio Freitas, no ano de 2007, travou debate com os acadêmicos – entre os quais me incluí –, e traduziu, com comparações estatísticas, a sua ideia inarredável de "dividir para crescer", com a qual concordo inteiramente. Nenhuma obra humana, seja física ou intelectual, se alevanta senão pela propulsão de uma ideia. MANFREDI MENDES DE CERQUEIRA em um de seus magníficos livros adverte que É preciso filosofar e costuma lembrar em suas reflexões acadêmicas, citando FRANCIS BACON, que "As idéias governam o mundo." Corram os dias, os meses e os anos, que a ideia de criação do Estado do Gurgueia há de concretizar-se. O trabalho de JESUALDO CAVALCANTI BARROS, porém, haveria de continuar e de outra forma não seria senão com o emprego da matéria-prima a que já me referi: a palavra. As perorações do Parlamento e os Acórdãos do Tribunal cederam lugar às páginas de pesquisa histórica e de narrativa memorialista. Depois de exercer três mandatos de deputado estadual, um mandato de deputado federal constituinte e de ter sido presidente da Assembléia Legislativa, fez-se conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, do qual foi presidente. O novo acadêmico é um homem realizado e feliz. Constituiu uma bela família, formada pela esposa Maria do Perpétuo Socorro Rocha Cavalcanti Barros, professora universitária, ex-reitora da Universidade Estadual do Piauí, pelos filhos: Jesualdo Cavalcanti Barros Filho, engenheiro civil e bacharel em direito, analista do Tribunal de Contas da União; Juliana Rocha Cavalcanti Barros, médica pneumologista/alergologista; Marina Rocha Cavalcanti Barros, juíza federal; pelos genros, nora e netos. Não esperou a compulsória e aposentou-se aos sessenta e dois anos, "para dedicar-se por inteiro à família, ao estudo e à pesquisa dos problemas do Piauí." Empreendeu pesquisas, guardou achados históricos preciosos e pediu ajuda a quem lhe pudesse ajudar. Entregou-se ao ofício de escrever. Eis o resultado dessa faina. Além de Memória dos Confins e de Tempo de Contar, já referidos, publicou as seguintes obras: Tempo de Cultura, O Estado do Gurgueia, Notícia do Gurgueia, Tempo de Tribunal, Dicionário Enciclopédico do Gurgueia e o livro mais recente Gurgueia, Espaço, Tempo e Sociedade.Senhor JESUALDO CAVALCANTI BARROS, acabais de tomar assento na Casa de Lucídio Freitas e de agora em diante a cadeira número três estará vinculada ao vosso honrado nome. Fazem a história desta cadeira os nomes de JOAQUIM SAMPAIO CASTELO BRANCO, seu patrono; de FENELON FERREIRA CASTELO BRANCO, primeiro ocupante; de CROMWELL BARBOSA DE CARVALHO e JOÃO GABRIEL BAPTISTA, segundo e terceiro ocupantes, respectivamente. Grande é a vossa responsabilidade, como o é a de todos nós que compomos o quadro de membros deste Sodalício, pois temos o dever de seguir o bom exemplo dos nossos antecessores e deixar para a posteridade uma justificativa convincente da nossa condição de acadêmicos. A propósito dos nomes que dignificam a cadeira número três da Academia Piauiense de Letras, a partir dos estudos do acadêmico WILSON CARVALHO GONÇALVES, faço esta apertada síntese. O padre JOAQUIM SAMPAIO CASTELO BRANCO, natural de José de Freitas-PI, foi o fundador-proprietário do jornal O Mensageiro, de São Luís-MA. Doutor em Direito Canônico, discutiu com profundidade se os padres deviam ou não se casar. Com o mesmo desassombro, em pleno apogeu da escravatura no Brasil, saiu-se em defesa da abolição dos escravos. O primeiro ocupante, FENELON FERREIRA CASTELO BRANCO, natural de Barras do Marataoan, era poeta, magistrado e jornalista; integra o grupo dos dez fundadores da Academia Piauiense de Letras. Seu poema satírico Recuerdo, em que parodia Meus Oito Anos de Casimiro de Abreu, é uma crítica mordaz àqueles governantes que se enfeitiçam com o poder, que é transitório. O segundo ocupante, CROMWELL BARBOSA DE CARVALHO, natural de Amarante-PI, era magistrado, jornalista e professor. Foi presidente do Tribunal de Justiça e o fundador da Faculdade de Direito do Piauí. O terceiro e último ocupante, JOÃO GABRIEL BAPTISTA, o segundo deste nome, era natural de Teresina-PI. Engenheiro civil, geógrafo e professor. Publicou seis livros. Em um deles, Ethnohistória Indígena Piauiense, no dizer do acadêmico M. PAULO NUNES, faz "um retrato minucioso, ano a ano, século a século, do que foi o chamado processo civilizatório piauiense, de como operaram nossos colonizadores, na sua obra sistemática e impressionante do massacre de uma raça e extinção de uma cultura, citando-lhes os nomes de batismo e as ações execrantes."A cidade de Corrente, vossa terra-berço, senhor JESUALDO CAVALCANTI BARROS, de agora em diante e para todo o sempre passa a integrar, por extensão, a Casa de Lucídio Freitas, respeitável instituição secular que representa a memória histórica, artística e cultural do povo piauiense. Eis o alcance de uma academia de letras. Do belo discurso de posse de MURILO MELO FILHO na cadeira número 20, da Academia Brasileira de Letras, transcrevo sábia lição: "Legítimas sucessoras das Arcádias do Século XVIII, as atuais Academias de Letras não são maniqueístas e almejam objetivos que só serão atingidos daqui a quatro ou cinco gerações, quando muitos anos já terão decorrido depois de nós."Muitos por aí alardeiam que elas – as academias - para nada servem. O escritor MÁRCIO SOUZA, que escreveu Mad Maria, belo e comovente romance, que virou telenovela e que retrata a dolorosa realidade da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, em seu discurso de posse na Academia Amazonense de Letras, entre outras considerações convincentes, deu claro sentido às Academias de Letras com estas palavras: "Mesmo que as Academias de Letras não produzam o milagre de melhorar a arte de seus membros, talvez elas sejam o lugar ideal para melhorar as qualidades humanas de cada um, pelo convívio afável irmanado no amor às letras, pelo embate de idéias, pelo exercício da sofisticação crítica, pela influência civilizatória na comunidade em que se inscrevem. Isto se chama cidadania e não é por outro motivo que as Academias de Letras apareceram no alvorecer da democracia moderna e foram instrumentos importantes para a sua consolidação no mundo como hoje o conhecemos."Restam, pois, sem argumento aqueles que não vêem utilidade ou valor algum nas Academias de Letras, de que é expoente maior a Casa de Machado de Assis, glória da literatura nacional e patrimônio cultural mais representativo do povo brasileiro. Senhor JESUALDO CAVALCANTI BARROS, sede bem-vindo. A Academia Piauiense de Letras vos recebe com alegria e com muita honra, certa de que a vossa atuação acadêmica somará grandemente na consecução daqueles objetivos estatutários idealizados em 1917 e que continuam muito vivos na consciência e na determinação de cada membro da Casa de Lucídio Freitas. |
|
|