OPINIÕES

 

GURGUÉIA: NEM PRECONCEITO NEM RESSENTIMENTO

Cons. Jesualdo Cavalcanti Barros

Estamos diante de um fato incontestável: tramita no Congresso Nacional o projeto de decreto legislativo autorizando a realização de plebiscito acerca da criação do Estado do Gurguéia. Lentamente, é bem verdade, mas já passou por duas comissões técnicas da Câmara dos Deputados. Se aprovado no plenário, rumará inexoravelmente para o Senado. Obtendo a aprovação também na Câmara Alta, a Justiça Eleitoral providenciará o plebiscito.

Na consulta plebiscitária que vier a ser feita, os eleitores de todo o Piauí, aí compreendidos os residentes tanto no Norte quanto no Sul, serão chamados a se manifestar sobre se concordam ou não com a criação da nova unidade federada. A decisão caberá basicamente ao povo do Norte, visto que nessa região residem 76,40% dos eleitores piauienses, restando ao Sul apenas 23,60%, distribuídos na amplidão de 62,44% do território estadual. Já se vê que o povo do Norte precisa certificar-se de que emancipar o Gurguéia será bom também para ele, como indicam todos os estudos técnicos que temos feito até hoje.

Daí a necessidade de submetermos o assunto à mais ampla discussão, na qual devem estar envolvidos todos os segmentos da sociedade piauiense. Somente discutindo, aprofundando estudos e pesquisas, tabulando, comparando e analisando dados estatísticos poderão ser afastadas as eventuais dúvidas sobre os benefícios porventura advindos da pretendida divisão, tanto para o Piauí como para o Gurguéia, pois não passa pela cabeça de ninguém inviabilizar qualquer um dos dois.

Ora, como tenho proclamado desde o primeiro momento desta campanha, “não pretendemos criar o Gurguéia contra o Piauí e, sim, com o Piauí”. Queremos, desta forma, repetir em terras piauienses o desprendimento e a visão política que balizaram o velho Estado de Goiás.

Que fez Goiás?

Apenas isto: carente de meios para incorporar o Norte goiano no processo de desenvolvimento do Estado, e convencido de que potencialidade sem investimento é ônus e não bônus, simplesmente patrocinou a emancipação daquela vasta região, transformando-a no hoje vigoroso e progressista Estado do Tocantins. Não foi sem razão que a proposta, votada na Constituinte, recebeu a aprovação unânime da bancada goiana. E o meu modesto voto também.

Quando o Piauí estará suficientemente amadurecido para tamanho gesto de grandeza, só o futuro dirá.

Mas não podemos esquecer que estamos ante um momento decisivo para resolver uma questão fundamental. Fundamental, sim, porque vai mexer com a arcaica estrutura econômica, administrativa, política e social vigente, desmontando todo um aparelho de poder que, ao longo dos séculos, perpetuou a pior das endemias, que é a pobreza.

Creio mesmo ser esta a segunda vez, em toda a sua história (a primeira foi a mudança da Capital de Oeiras para Teresina), que o Piauí se defronta com a discussão de um assunto de tal magnitude. Isto é, assunto capaz de definir, de uma vez por todas, novos rumos para os sonhos de grandeza que acalentam os habitantes desses “sertões de dentro”. Se querem permanecer na pasmaceira do atraso trissecular, ou se ousam dar um salto em busca de construir um destino menos sombrio.

Alguns vêem nessa discussão um mero exercício de imaginação. Outros acham que essa pretendida divisão teria o escopo apenas de acomodar políticos, abrindo-lhes oportunidades para mais cargos e posições. Há também os que proclamam que “dividir o Piauí é dividir a miséria”.

A questão é muito maior do que vislumbram esses arautos da acomodação e vanguardeiros do atraso. A meu ver, ela encerra um sentido muito mais profundo, pois nos coloca diante das seguintes indagações: Há perspectiva real de desenvolvimento do Piauí nos moldes atuais? Se há, onde buscará os meios para tal, sabido que no mês que o Estado paga a sua folha de pessoal não consegue honrar a sua dívida fundada nem custear a máquina administrativa? Assim, e sendo quase nula sua capacidade de investimento (apenas 2,06% em 2000), quando o Piauí disporá de recursos para investir no Sul (em estradas, energia, pesquisa tecnológica etc), de modo a converter suas potencialidades em riqueza e bem estar social? E, por último, afora a emancipação do Gurguéia, que dobraria os recursos e dividiria apenas os encargos, inclusive os relativos aos servidores, qual a outra saída para o futuro do Piauí?

Não, mil vezes não! Não aceito a postura, e algo interior me leva às raias da indignação, dos que combatem a criação do Estado do Gurguéia por mero preconceito contra os políticos, acoimando-os, indistintamente, de interesseiros. Nem, de igual modo, dos que a defendem por incontido ressentimento para com nossos governantes, responsabilizando-os pelo histórico abandono do Sul.

Pura tolice. Como toda posição extremada, essas duas pecam pelo descompasso com a realidade. É bem verdade que a nossa experiência não recomenda conceder aos políticos o halo da santidade, mas justiça se lhes faça: devemos a eles, através de emendas parlamentares garimpadas na votação do orçamento federal, os poucos investimentos públicos que o Piauí tem recebido nos últimos decênios. Quanto ao questionado abandono do Sul, ouso perguntar: afinal, o que no Piauí não tem a marca cruel e desoladora do abandono?

Por isso, abaixo o preconceito e o ressentimento! E viva o Estado do Gurguéia!

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