MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

PIAUHY II - GURGUÉIA

 

Deoclécio Dantas, jornalista

 Na idade em que estou, perto de ser alcançado pela compulsória, e com a decisão tomada, em 1988, de não mais incomodar o distinto eleitorado pedindo votos para o exercício de outros mandatos eletivos, sinto-me inteiramente à vontade para defender a criação do Estado do Gurguéia.

 Não tenho projeto pessoal em relação a tal objetivo e posso assegurar aos meus leitores que minha mulher, minha filha e meus dois filhos estão com projetos de futuro definidos, nenhum deles interessado em disputar mandato eletivo, nem no Piauí, território no qual nasceram, estudaram, se formaram e trabalham, e muito menos em outra unidade da Federação.

 Mas não desisto, mesmo diante das provocações de gente que não identifica ascetas na vida pública – e eles existem, inclusive no Piauí –, de dar a minha colaboração aos esforços daqueles que, nascidos no extremo sul piauiense, defendem a criação do Estado do Gurguéia.

 Em 1984, a convite do então deputado Heráclito Fortes, sobrevoei o Vale do Taquara, na minha primeira visita ao município de Santa Filomena, aquele que, no distante ano de 1910, recebeu a promessa de construção de uma estrada ligando-o ao município de Gilbuéis.

 Do alto, a bordo de um bimotor, tive a atenção despertada para extensas áreas cobertas de lonas, sobre morros de difícil acesso. Era o arroz estocado, 140 mil sacas, na época, segundo revelação do então prefeito Almérico Alencar, pronto para um escoamento dos mais complicados, sobre botes, em direção ao Maranhão.

 Pois a sonhada estrada entre Santa Filomena e Gilbuéis, que não existia em 1984, ainda hoje, nos seus 164 quilômetros, é uma buraqueira só, percorrida em menos de 5 horas, quando não está chovendo na região.

 Mas só a falta dessa estrada justificaria o esforço voltado para a criação do Estado do Gurguéia? Claro que não! Sem recursos para a construção de diversas outras estradas, redes de energia elétrica, hospitais, escolas e outros equipamentos públicos, o governo do Piauí – os do passado e o atual – não tem como atender as demandas de uma população distribuída numa área de 250.934 quilômetros quadrados.

 Seis vezes maior que Sergipe, grande parte do território delimitado para a pretendida instalação do Estado do Gurguéia, envolvendo um total de 152.233 quilômetros quadrados, só tem servido aos objetivos de grileiros de várias regiões do Brasil, que não respeitam limites territoriais e muito menos as nascentes dos nossos principais rios, riachos e florestas, transformados em pastos que servem aos interesses de criadores alienígenas. 

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