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MATÉRIA
SOBRE O GURGUÉIA |
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COM
GURGUÉIA, PIAUÍ GASTARÁ MENOS
Assim, pouco tempo sobra para o governante pensar efetivamente o Piauí
como um todo, seus projetos e programas de desenvolvimento, enfim, o adequado
aproveitamento de suas potencialidades e oportunidades de investimentos. Ora, a máquina administrativa jamais poderá ser encarada como um fim em si mesmo, senão como um meio para que o Estado possa atingir os seus fins, cuja meta é o bem-estar social. Consumindo tudo o que produz, tal máquina, em lugar de gerar serviços de qualidade para o cidadão, transforma o Estado em refém de sua voracidade irrefreável. Age como Saturno, devorando os próprios filhos, isto é, aquilo que é capaz de gerar. E, quanto mais gera, mais consome.
Para se ter uma exata dimensão da gravidade do problema, basta
acrescentar que o item “Despesas Correntes”, basicamente o custeio da
máquina administrativa, segundo dados do TCE/PI, consumiu, em 2000, nada menos
de 85,56% do total dos gastos da administração direta e indireta do
Estado.
No mesmo exercício, idênticas despesas no Tocantins atingiram valores
correspondentes a 56,60%, e assim este último Estado pôde aplicar 43,40%
de seus gastos em Despesas de Capital (investimentos, inversões financeiras
etc), enquanto o Piauí se limitou a míseros 14,44%.
E não poderia ser de outra forma: o Poder Executivo emite mensalmente
mais de 83.000 contracheques de pagamento do pessoal ativo, inativo e
pensionista, excluído desse astronômico montante, esclareça-se, o pessoal
vinculado ao Poder Legislativo (Assembléia Legislativa e Tribunal de Contas),
ao Poder Judiciário e ao Ministério Público Estadual. No mínimo, mais 5.000
contracheques. Pior é que, apesar de toda essa autofagia explícita, ninguém
está satisfeito com o que ganha.
Onde isso vai parar? Que resta para aplicar em transportes, energia,
incentivo à industrialização, modernização da agricultura e da pecuária,
saúde, educação, segurança? Quase nada!
Uma das vantagens advindas da criação do Estado do Gurguéia reside
justamente na redução das despesas com a máquina administrativa. A divisão
ensejará a duplicação dos recursos (outro FPE, FUNDEF etc, retirados,
repita-se, não do Piauí mas do bolo nacional), enquanto que os servidores
residentes na área emancipada lá ficarão, passando a integrar seu quadro de
pessoal. Significa dizer que, no mínimo, 20.000 daqueles contracheques serão
pagos pelo novo Estado. E, na mesma proporção, despesas outras decorrentes da
manutenção e funcionamento das repartições lá situadas.
Por outro lado, a Constituição Federal estabeleceu, no seu artigo 235,
normas rígidas de controle de despesas a serem observadas por novo Estado,
durante os 10 primeiros anos de sua existência:
1 – A Assembléia Legislativa será composta de 17 Deputados se a
população do Estado for inferior a 600.000 habitantes, e de 24, se igual ou
superior a esse número, até 1.500.000 habitantes;
2 – O Governo terá, no máximo, dez secretarias;
3 – O Tribunal de Contas terá apenas três Conselheiros;
4 – O Tribunal de Justiça terá sete Desembargadores, que deverão ser
nomeados dentre os magistrados, promotores e advogados em exercício na área do
novo Estado ou do Estado originário;
5 – As despesas orçamentárias com pessoal não poderão ultrapassar
50% da receita do Estado.
Por isso é que o Tocantins gasta apenas 40,60% de suas receitas
correntes líquidas com Pessoal e Encargos Sociais (Poder Legislativo, incluindo
o Tribunal de Contas – 2,43%; Poder Judiciário – 2,67%; Ministério
Público – 1,35% e o Poder Executivo – 34,15%), conforme dados do seu TCE
sobre o exercício de 2000.
Aqui a realidade é outra bem diferente, mas bastante preocupante: o
Estado gasta 57,80% de suas receitas correntes líquidas com Pessoal e Encargos
Sociais (Poder Legislativo, incluindo o Tribunal de Contas – 4,97%; Poder
Judiciário – 5,45%; Ministério Público – 2,14% e Poder Executivo –
45,22%), alguns extrapolando, como se vê, os limites estabelecidos pela Lei de
Responsabilidade Fiscal, a saber: Poder Legislativo – 3%; Poder Judiciário
– 6%; Ministério Público – 2% e Poder Executivo – 49%. Como não tenho
bola de cristal, pergunto: haverá outra saída fora a divisão?
Volto a insistir: a idéia deve ser discutida por toda a sociedade
piauiense. Por uma razão muito simples: ela deve interessar a todos e por todos
deverá ser decidida.
Transcrevo o que escrevi em julho/93 ao apresentar o folheto “Estado do
Gurguéia, Semente para o Futuro”:
“Sei que o assunto é explosivo, que causa toda sorte de reações,
inclusive de indignação. Isto é bom, pois só acredito que uma sociedade é
capaz de encontrar saídas para os seus problemas quando ela ainda é capaz de
indignar-se.” |