MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

GURGUÉIA, UM ESTADO VIÁVEL

Jesualdo Cavalcanti, presidente do Cedeg

 

Como não poderia deixar de acontecer, a discussão em torno da criação do Estado do Gurguéia começa a formar correntes de opinião. Uns contra, outros a favor, o certo é que, finalmente, no Piauí, se discute alguma coisa, e assim, aos poucos se vai quebrando o marasmo da indiferença, do imobilismo e da omissão.

Por isso ouso dizer que, se outro efeito não fosse possível vislumbrar, o simples fato de se discutir o futuro do Piauí, suas perspectivas de desenvolvimento e o aproveitamento de suas potencialidades, por si só já paga, e bem, o preço dos dissabores e incompreensões gerados no calor da polêmica.

Mas, de todos as matérias até agora divulgadas sobre o assunto, nenhuma outra foi capaz de justificar tanto a viabilidade do Estado do Gurguéia quanto o artigo inserido no jornal “Diário do Povo”, edição de 28/07/93, sob o título “DIVISÃO TERRITORIAL”.

Se o seu autor pretendia realmente alinhavar motivos desaconselhadores da criação do Estado do Gurguéia, não há dúvida de que cometeu tremendo equívoco, pois sua argumentação apenas justifica, reforça e legitima a idéia.

De fato, diz o articulista que, se criado o Estado do Gurguéia, sua receita tributária alcançaria menos de 20% ( vinte por cento) da arrecadação tributária do Piauí, isto é, cerca de 72 BILHÕES mensais, enquanto que a despesa com pessoal somaria 140 BILHÕES DE CRUZEIROS.

Ora, se a receita tributária (ICMS e outros tributos) fosse a única fonte de receita do Estado, o articulista teria toda razão e assim o Gurguéia seria inviável e deficitário.

Ocorre no entanto que o Piauí, como vários outros Estados menores, não tem a arrecadação própria a sua única, ou mesmo principal fonte de receita, pois a COTA que recebe mensalmente do FUNDO DE PARTICIPAÇÃO DOS ESTADOS (FPE) corresponde a TRÊS VEZES o valor arrecadado a título de ICMS e outros tributos!

Por exemplo, em junho último o Piauí arrecadou de ICMS e outros tributos apenas 360 BILHÕES DE CRUZEIROS, enquanto recebeu de CONTA DO FPE mais de UM TRILHÃO, precisamente UM TRILHÃO, OITENTA E OITO BILHÕES, SETECENTOS E SETENTA E TRÊS MILHÕES, QUINHENTOS E QUARENTA MIL, DUZENTOS E CINQÜENTA E DOIS CRUZEIROS!!!

O Estado do Tocantins, cuja população corresponde à que teria hoje o Estado do Gurguéia ( menos de um milhão de habitantes), recebeu do FPE no referido mês até mais, ou seja, UM TRILHÃO E NOVENTA E TRÊS BILHÕES DE CRUZEIROS! Vale salientar, por outro lado, que a Capital do Tocantins ( Palmas) com a população de apenas 60 MIL HABITANTES recebeu do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) em junho nada menos de CENTO E CATORZE BILHÕES, QUINHENTOS E TRINTA E NOVE MILHÕES, NOVECENTOS E QUARENTA E DOIS MIL E NOVECENTOS E OITENTA E DOIS CRUZEIROS, valor igualmente pago a Teresina e São Luís, cidades com população superior a 600 MIL HABITANTES.

Neste caso: dividir não empobrece. Ao contrário, enriquece. Se não bastasse o exemplo do Tocantins e Mato Grosso do Sul, hoje florescentes Estados, convém analisar a situação de São Raimundo Nonato. Esse município recebeu de FPM em junho a quantia de NOVE BILHÕES, CENTO E CINCO MILHÕES, QUATROCENTOS E NOVE MIL, NOVENTA E OITO CRUZEIROS E SETENTA E TRÊS CENTAVOS.

Se não tivesse sido dividido, teria recebido a mesma coisa, No entanto, de São Raimundo Nonato foram desmembrados cinco municípios, e cada um deles recebeu, no mesmo mês, cota no valor de DOIS BILHÕES, DUZENTOS E SETENTA E SEIS MILHÕES, TREZENTOS E cinqüenta E DOIS MIL, DUZENTOS E SETENTA E QUATRO CRUZEIROS E SESSENTA E OITO CENTAVOS. Significa dizer que, dividida em seis municípios, a antiga área de São Raimundo Nonato passou a receber VINTE BILHÕES E QUINHENTOS MILHÕES DE CRUZEIROS.

Vê-se, pela clareza dos números que o Estado do Gurguéia seria hoje um dos poucos Estados viáveis do Brasil, pois teria um superávit mensal superior a OITOCENTOS BILHÕES DE CRUZEIROS, sem tirar o Piauí, dinheiro suficiente para implantar, em pouco tempo, a infra-estrutura de que carece (educação, saúde, energia, estradas etc.) e assegurar o pleno aproveitamento de suas potencialidades, transformando-as em riqueza e bem-estar para o seu povo. Dinheiro que o Piauí não tem e jamais terá para aplicar na região, diga0se de passagem, por mais boa vontade que possam exibir seus governantes.

O povo do Gurguéia, aquinhoado com o maior lençol freático do Mundo e dez milhões de hectares de cerrado, quer autonomia para provar que tem garra para vencer esse desafio.

É crime querer o justo?

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