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MATÉRIA
SOBRE O GURGUÉIA |
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O GURGUÉIA INCOMODA Maria do Socorro Rocha Cavalcanti Barros* (Artigo publicado no Jornal Diário do Povo - 15.08.2007) Esperar que o todo-poderoso empresariado paulista, conluiado aos burocratas de Brasília, concordariam com a criação do Estado do Gurguéia seria no mínimo ingenuidade. Afinal, da cumplicidade dessas duas potências, aliadas a outras menos vistosas, mas também poderosas, resultou essa deformidade absurda que é hoje o mapa social do Brasil, dividido praticamente em dois estratos: uma casta de ricos, beneficiária tradicional e permanente das políticas de governo, pequeno e exclusivo mar para onde sempre correm todas as benesses. E a outra, perdida nos grotões do Nordeste ou nas florestas do Norte, ou ainda nas favelas das grandes cidades, inchadas pelo continuado êxodo de pobres que saem dos campos, sempre das regiões mais pobres. Esta incomoda aquela, mas é indispensável: se não existisse, não haveria a casta de ricos! Somente assim se entende a violência com que alguns articulistas- empresários se levantam contra a idéia da criação do Estado do Gurguéia. Ninguém cogita dos benefícios que a nova formatação política traria para os esquecidos piauienses, perdidos nos imensos bolsões de pobreza que se perpetuam principalmente na metade-sul do Estado. Nenhum deles cogitou de quanto a criação da nova unidade federada traria de integração para essa gente, de resgate de cidadania, do maior exercício de democracia que se promove, sempre que a administração pública se aproxima do cidadão beneficiário dela. Quando falam da nova estrutura burocrática que seria criada (e não seria tão grande, pois está limitada na Constituição), não dizem de quanto a justiça estaria mais próxima do cidadão, de como seria mais fácil o acesso à escola pública, de como os equipamentos de saúde poderiam funcionar melhor. Disso não falam. Não convém a seus interesses, sempre colocados acima de tudo e de todos. Uma grande falácia: dizer que o Governo Federal bancaria a conta de criação do novo Estado. Os recursos viriam, isto sim, da redivisão do bolo tributário nacional. E nada mais justo que redistribuir, beneficiando parcelas tão pobres e historicamente esquecidas. O que quase não faz falta aos mais ricos, poderia ser a redenção do mais pobre! Na cruzada contra o Estado do Gurguéia costumam bradar: seria um dos mais pobres da federação. O que não se nega: surgindo de uma região reconhecidamente pobre, claro que teríamos um Estado pobre. É justamente a pobreza avassaladora de nossa gente que nos faz buscar soluções redentoras, que alguns consideram tão radicais. O que se garante, a despeito da campanha articulada, é que não abdicaremos de nossa crença num futuro melhor com a criação do novo Estado: a região teria enfim seu grande potencial explorado, dispondo de recursos quase equivalentes ao que hoje dispõe o Piauí, com uma máquina enxuta e uma administração plantada no centro de seu território. Não nos renderemos às ironias, ao sarcasmo e ao deboche de exemplos grotescos que nada têm a ver conosco. * Presidente do Conselho Estadual de Educação do Piauí |