MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

ENSINO SUPERIOR NO PIAUÍ:  SALVAÇÃO OU FRUSTRAÇÃO?

Socorro Rocha Cavalcanti Barros*

(Artigo publicado no Jornal Diário do Povo - 13.05.2009)

Analisando os últimos dados apresentados pelo IBGE, relativos ao ano de 2005, verificamos que tínhamos então uma matrícula de 59.285 alunos no ensino superior no Piauí o que resultou, segundo estimativas, na saída de cerca de cinqüenta mil formados nos últimos quatro anos. Hoje, certamente, temos um número muito maior, considerando o visível incremento das instituições desse nível de ensino estabelecidas no Piauí, quase todas abarrotadas de alunos. A esse contingente se somam os agora atendidos pela Universidade Aberta do Brasil, também  em número crescente, ano a ano. Numa avaliação pessimista, estima-se que estarão se formando em nossa terra,  neste e nos próximos, em torno de quinze mil profissionais a cada ano. A constatação dessa nova realidade nos alegra mas também nos traz graves questionamentos. 

A satisfação, que realmente nos conforta a alma, é saber que mais piauienses estão rompendo a barreira estreita do vestibular , buscando cada vez mais ampliar seus conhecimentos, seu nível educacional. A crença geral de que só a Educação salva e promove o desenvolvimento, certamente vale também no Piauí e, nesse sentido, toda ela é benéfica. 

O primeiro questionamento, como não poderia deixar de ser, diz respeito à qualidade do ensino superior que se vem praticando no Piauí, como de resto, em todo o Brasil. Os resultados das avaliações promovidas nos anos recentes são desanimadores. Há que se fazer um grande esforço para conferir maior qualidade a esses cursos, correspondendo às expectativas da sociedade e principalmente de nossos jovens. Com justa razão, o estudo é a grande esperança de todos para melhorar de vida. 

É exatamente no quesito melhorar de vida, que reside a grande questão: como ficam esses profissionais depois de formados? Sem dúvida, o grande sonho de todos eles é ter um emprego compatível com sua formação, com salário que lhe garanta uma vida digna. Nada mais legítimo que alimentar esse sonho, mas será que isso realmente vem acontecendo?  

Nosso Piauí, a despeito da propaganda oficial, continua um Estado empobrecido e com uma economia semi-paralisada, sem  grandes indústrias, sem grandes investimentos. Infelizmente, depois de anos de estudos, em que muitas vezes o tempo é dividido entre o trabalho e as aulas noturnas, ou que a faculdade é suportada pelo sacrifício da família inteira, as perspectivas que se apresentam a nossos jovens são desanimadoras.  Não é à toa que a principal atividade de nossos graduados nas mais diferentes áreas é “estudar pra concurso”! Mas quantos são esses concursos e quantas vagas oferecem?

Por essas e outras, é consenso que a crônica situação de atraso do Piauí carece de medidas realmente radicais, que temos que ter a coragem de adotar ou mesmo de lutar por elas. A grande saída, que nos parece viável e legítima, é a criação do Estado do Gurgueia. Ano passado visitamos o Tocantins e testemunhamos o sopro de desenvolvimento que chegou em toda aquela região. Lá encontramos muitos piauienses, formados em nossas escolas, emprestando seu talento na construção do novo estado, porque aqui não conseguiram trabalho. Temos que admitir que esses talentos nos fazem falta, suas ausências nos atrofiam, mas infelizmente  não  temos como retê-los. Aqui, faltam oportunidades. 

Enquanto isso, a capital do Tocantins é um canteiro de obras, sementeira de projetos que se irradiam por todo o Estado e que demandam trabalhadores de todos os níveis e aptidões. Algo parecido aconteceria aqui com a criação do novo estado, e não só com a construção de uma nova  estrutura administrativa, que de cara absorveria uma enorme leva de profissionais de todas as áreas. Aqui, como testemunhamos no Tocantins, abrir-se-ia um grande espaço para a iniciativa privada: na construção civil, com a edificação de toda a estrutura física do novo estado, novas moradias, prédios para comércio e indústrias; na agropecuária, com a demanda dos novos mercados por alimentação; no setor de serviços, toda a cadeia de atendimento à nova administração pública, o comércio e os serviços em geral. Enfim, toda a cadeia produtiva e de serviços que se ampliaria e seria  acelerada, tanto no novo estado como no estado tronco - o Piauí - também grande beneficiário desse jorro de desenvolvimento. Afinal, o Piauí ficaria com as mesmas verbas públicas e com muito menos encargos, pois seria desonerado de boa parte de sua carga administrativa. Assim ocorreu com Goiás e o Tocantins.Para atender a esse novo mundo em crescimento, seriam chamados os egressos dos cursos superiores: engenheiros, agrônomos, veterinários, professores, advogados, especialistas das áreas de saúde, da  administração, de serviços, enfim, nossos profissionais, formados com recursos públicos ou com o esforço deles próprios ou de suas famílias, que hoje se inquietam na espera de um emprego que custa a chegar, engrossando as quilométricas filas dos candidatos a emprego. 

Por outro lado, é indispensável lembrar que o Piauí não participou dos ciclos de desenvolvimento anteriores do país, em especial do Nordeste. Ficou esquecido no seu canto, na tradicional postura  tímida e sem grandes arroubos. Enquanto em outros estados o DNOCS plantava a infra-estrutura necessária e a Sudene injetava pesados recursos, o Piauí contemplava, sem participar com projetos realmente eficazes. Naquele momento, muitos estados do nordeste deram o grande salto, como o Ceará, Pernambuco, Bahia e outros. Nós perdemos o bonde e a consequência mais visível dessa atitude displicente está sendo paga por essa nova geração, que hoje se debate, sufocada por falta de horizontes. Agora, é imprescindível acreditar e reivindicar soluções radicais: o Piauí também precisa de ter o seu momento! Precisa acreditar que agora é chegada a sua vez e não dá mais para esperar. É hora de criar o Gurgueia.

*Professora aposentada da UFPI, ex-reitora da UESPI e membro do Conselho Estadual de Educação

(e-mail: socorro@ceepi.pro.br)

 

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