MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

O GURGUÉIA NÃO É APENAS UM SONHO

José Mendes de Sousa Moura*

(Artigo publicado no Jornal Diário do Povo - 12/06/2009)

O mapa geopolítico do Brasil precisa mudar para alcançarmos desenvolvimento social pleno. De fato, para que todos os componentes da sociedade brasileira sejam beneficiados é necessário que o capital humano e os gestores públicos interajam entre si e criem condições para a geração de riquezas e bem-estar social. Para isso acontecer, é preciso repensar um novo mosaico político-geográfico brasileiro, com a criação de mais estados federados mediante a divisão daqueles que têm áreas territoriais distantes e desassitidas.

Nesse sentido tramitam atualmente no Congresso Nacional mais de uma dezena de Projetos de Lei voltados para a criação de novas unidades federativas. Pelas propostas apresentadas, todas as regiões seriam subdivididas:

·       No Sul seria criado o estado do Iguaçu, mediante a divisão do Paraná e Santa Catarina;

·       No Sudeste seriam criados os estados de São Paulo do Leste, Minas do Norte, Triângulo e o estado da Guanabara voltaria a existir;

·       No Centro-Oeste teríamos Araguaia, Mato Grosso do Norte e Planalto Central;

·       O Nordeste ganharia os novos estados do Maranhão do Sul, São Francisco e Gurguéia;

·       Na região Norte surgiriam os novos estados de Tapajós, Solimões e Carajás, e ainda os territórios federais do Marajó, Alto Rio Negro e Oiapoque.     

De todos os Projetos de Lei, o que cria o Maranhão do Sul, formado pelas porções meridional e ocidental do atual Maranhão, está mais adiantado. O do nosso Gurgueia, salvo engano, vem em segundo lugar.  

Dividir o Piauí para criar o Gurguéia não deve ser entendido de maneira simplista, como uma quimera política, pela qual grassaria o oportunismo e criariam cargos públicos para o desfrute dos políticos que são favoráveis à divisão. A questão tem uma dimensão nobre e bem mais ampla do que se possa imaginar, encerrando-se no princípio segundo o qual “o desenvolvimento de uma região dependerá do melhor aproveitamento de suas potencialidades”.

É fato histórico que o sul do Piauí ficou em segundo plano no processo de desenvolvimento do estado e desprezado ou pouco assistido pelos governos ao longo dos tempos. Por muitos anos a construção de rodovias federais e estaduais, por exemplo, se concentrou na região norte, opção clara na esfera do governo estadual para o início da implantação de rodovias. Com os dois terços do território ao sul sem estradas, embora com enorme potencial agrícola e responsável pela maior parcela da produção agropastoril, a região ficou praticamente isolada e apresentando grandes vazios demográficos.

O processo de construção de estradas na região começou timidamente na década de 1960, quando o governo estadual construiu a antiga PI-4 ligando Floriano a Corrente, promovendo desta forma a ligação da região norte com a Bahia e o Distrito Federal. Atualmente a antiga PI-4 é constituída pelas rodovias PI-140 (trecho Floriano – Canto do Buriti); PI-141 (trecho Canto do Buriti – Elizeu Martins) e BR-135 (trecho Elizeu Martins – Divisa PI/BA), que formam o grande eixo rodoviário do Gurguéia. Na região, ganha destaque como um eixo coletor a PI-397, batizada de transcerrados, ligando o município de Sebastião Leal à PI-254 e daí a Santa Filomena, atravessando as serras da Estiva, do Uruçuí e do Quilombo por um providencial divisor d’água. No modal ferrovia a perspectiva de conclusão da transnordestina, atravessando o Gurguéia até alcançar Pernambuco, passando por Elizeu Martins, traz esperança de mudança nas atividades econômicas da região.

Assim como o governo estadual não consegue estruturar o Piauí com obras que realmente alavancam o desenvolvimento, o governo central também tem se mostrado alheio aos anseios dos piauienses. Segundo Felipe Mendes “a única grande obra estruturante da economia piauiense, realizada pelo governo federal, foi a Hidrelétrica de Boa Esperança, implantada entre 1964 e 1970”. (“Economia e Desenvolvimento do Piauí” p. 227). Claro que houve também o interesse e o concurso de políticos piauienses para a sua construção, a exemplo do Dep. Milton Brandão, um defensor incansável de Boa Esperança. Sua implantação, no entanto, deveu-se mais à existência de uma política nacional definida para a expansão da oferta de energia, com a interligação ao Sistema Chesf/Paulo Afonso.

O Piauí tem enormes potencialidades para progredir, porém sua configuração territorial não favorece o desenvolvimento sustentável e harmônico. Com mais de mil quilômetros separando seus extremos norte e sul, o estado tem carência de infraestrutura em todos os setores. E a região sul é a que mais sofre com essas mazelas.

Conclui-se, portanto, que a criação do futuro estado do Gurguéia significa o equilíbrio, ou seja: redenção para a sua população e maior proveito para o novo Piauí.   

 

    * Engenheiro Civil, Conselheiro e Coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Civil do CREA-PI, 2º Diretor-Financeiro do CEDEG.    

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