MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

GURGUEIA: ESPAÇO TEMPO E SOCIEDADE

Jesualdo Cavalcanti Barros*

(Artigo publicado no Jornal Diário do Povo - 26/06/2009)

Eis o título do novo livro que pretendo lançar ao publico nos próximos dias. Escrito na nova ortografia, trata-se de um colorido mosaico de informações sobre as realidades presentes e passadas de uma região tão rica quanto desconhecida do Piauí: o Gurgueia. Nele, com base nos dados exibidos pelos 87 municípios integrantes do projeto de emancipação que tramita no Congresso Nacional, são expostos, o mais amplamente possível, os aspectos geográficos, históricos, econômicos, sociais, político-administrativos e culturais que o caracterizam, incluídos os pensares, falares, fazeres e a bibliografia produzida por seus escritores e poetas, ou relacionada com a região, ao longo dos tempos. E mais: as atas de instalação de seus primeiros municípios – Parnaguá e Jerumenha (1762) – agora descobertas e publicadas.    

O que importa mereceu registro. A começar da presença humana centenária nos grotões das serras da Capivara e das Confusões, que a determinação da guerreira Niède Guidon tornou parques nacionais e patrimônio cultural da humanidade, mas que, nem por isso, ou talvez por isso mesmo, deixou de ser alvo de agressões por parte de raivosos senhores das trevas.

Prossegue com a reconstituição da saga de sua colonização, que se confunde com o processo levado a efeito no próprio Piauí, pois que se localizaram justamente nas margens do Gurgueia as primeiras terras concedidas aos desbravadores dos então chamados Sertões de Dentro (1676), à frente Domingos Afonso Mafrense. Este, ao falecer em 1711, legaria ao Colégio dos Jesuítas, na Bahia, a administração de fazendas e sítios que totalizavam nada menos de 145 léguas de extensão por 75 de largura. Vale salientar que o sistema baseado na concessão de léguas de sesmarias (uma légua de sesmaria correspondia a 6.600 metros, resultando em 4.346 hectares uma légua quadrada) redundaria na brutal concentração das terras em mãos de uns poucos, cujos efeitos deletérios se fazem sentir nos latifúndios que até hoje emperram o desenvolvimento de justas relações no campo.   

Mas para promover tamanha concentração de terras, e povoá-las com currais de criação de gado que se multiplicavam a mancheias, foi travada uma feroz e nada justa guerra de dizimação das populações nativas, sobretudo os Acaroás, Gurgueias e Pimenteiras. A pecuária extensiva, assim gerada, depois de duzentos anos de fartura, entraria em declínio e só conheceria melhores resultados com a substituição do gado pé-duro por raças zebuínas e a introdução de tecnologias de ponta no seu manejo, medida que se mostrou capaz de manter o criatório em posição de destaque na economia regional.  

Não foram esquecidas, por outro lado, as novas vítimas desse continuado processo de conquista, representadas pelas moitas retorcidas dos cerrados, paulatinamente derrubadas para abrigar campos de grãos que se perdem na imensidão do horizonte, fazendo do gurgueiano, antes de conhecer o arado, familiar de possantes colheitadeiras.

Não é demais reconhecer a presença marcante de sua gente nos momentos mais decisivos do Piauí, a exemplo da Guerra da Independência, quando o capitão Tibúrcio José de Borges, a suas expensas, comandou a marcha de 148 cavalarianos de Parnaguá para, deixando um rastro de muitos combates, ajudar a dobrar o cangote do major Fidié, na vila maranhense de Caxias (1823). Não menos bravura demonstraria o tenente-coronel José Lustosa da Cunha, futuro Barão de Santa Filomena, ao descer o caudaloso Parnaíba em balsas de talos de buriti, à frente do 2º Corpo de Voluntários da Pátria, organizado naqueles sertões, para combater as tropas do ditador Solano López na Guerra do Paraguai (1865/1870). Nessa epopeia sem igual nos anais de nossa história, resta homenagear, sem delongas, o sacrifício de mais de uma centena desses bravos que se imolaram nas carnificinas dos campos paraguaios, em honra da pátria ultrajada.

Alimenta a nossa autoestima saber que um filho daqueles sertões, o Marquês de Paranaguá, se tornou o mais importante piauiense de todas as eras, ao ocupar no reinado de dom Pedro II, além dos governos do Maranhão, de Pernambuco e da Bahia, os ministérios da Justiça (duas vezes), da Guerra (duas vezes), dos Estrangeiros (duas vezes) e da Fazenda, este acumulando com a presidência do Conselho de Ministros (1882).

Embora insuficientemente estudado este impacto, são palpáveis as transformações por que passamos a partir da mudança da capital para a margem do Parnaíba, sobretudo por ter propiciado, através da navegação a vapor até Santa Filomena, a incorporação do sudoeste no processo de desenvolvimento do Piauí. É sintomático que o surgimento de todas as cidades ribeirinhas do grande rio, ao sul de Teresina, sem exceção, tenha ocorrido justamente depois de 1852.

É preciso saber que a isolada Corrente se tornou berço da diversidade religiosa no Piauí ao inaugurar, em 1904, o primeiro templo não-católico – a igreja batista – convertendo-se, a partir daí, em centro de irradiação desse culto para todo o Estado. E que, em contraposição, a Prelazia de Bom Jesus do Gurgueia, criada para combater o protestantismo, não se instalou na cidade que lhe dá o nome e, sim, em São Raimundo Nonato (1922), a cerca de 350 km de distância.   

Nesse nostálgico passeio de resgate histórico, convém lembrar que, no decurso de 191 anos, apenas dois governantes piauienses pisaram os pés naqueles sertões: o primeiro, João Pereira Caldas, para instalar as vilas de Parnaguá e Jerumenha (1762) e, o segundo, Pedro de Almendra Freitas, ao visitar Corrente (1953). No entanto, nenhum deles esqueceu de mandar o coletor para sugar o fruto do trabalho de seu povo e a polícia para proteger os coronéis do sertão, donos dos votos que legitimavam o poder das oligarquias. Mas nem assim conseguiram manter nos estreitos limites dos currais as forças sociais em ebulição. Daí a Balaiada (1838/1841), o conflito armado Nogueira/Granja (1922/1926) e a guerra dos caceteiros (1937), sem falar na organização de batalhões revolucionários para garantir a eleição de Miguel Rosa ao governo do Estado (1912) e a posse do oposicionista Eurípides de Aguiar quatro anos depois (1916).

Exposta está também a sua geografia: rios, riachos, lagoas, bacias hidrográficas, serras, chapadas, boqueirões, biomas. Bem como os recursos do subsolo, tais como o níquel da região de São João do Piauí e o ferro da de Paulistana.

A obra deixaria a desejar se não retratasse as famílias tradicionais, muitas delas com raízes fincadas nos primórdios da colonização e ainda hoje aparelhadas de efetivo poder de mando político, não raro espalhado por municípios vários.

E, como não poderia deixar de ocorrer, foi possível captar um rico vocabulário popular, em que é fácil perceber que lá viceja um linguajar único e inconfundível, evidenciando traços culturais bem distintos, não imunes, no entanto, a influências de vizinhos baianos e pernambucanos.

De fato, qual o significado de palavras como, por exemplo, canguinho, estruir, godes, lorde, nascida, ponga, quicau, roncha, simonte, tixim?

Bem, para quem não sabe, por que não recorrer ao livro?

 

                                         * Pres. do Centro de Estudos e Debates do Gurgueia

(e-mail: jesualdo@gurgueia.org.br) 

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