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MATÉRIA
SOBRE O GURGUÉIA |
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A VEZ DO GURGUEIA
Jesualdo Cavalcanti*
(Artigo publicado no Jornal Diário do Povo - 18/09/2009)
Por razões várias, amplia-se a todo instante a discussão em torno da redivisão territorial do País. Seja para corrigir gigantismos ou deformidades territoriais; seja para combater desigualdades sociais e econômicas entre pessoas ou regiões; seja para melhorar a partilha de recursos federais; seja para desconcentrar políticas de desenvolvimento; seja para dinamizar a economia de áreas potencialmente promissoras; seja para facilitar e racionalizar a administração pública, o certo é que há fortes pressões pela criação de quase duas dezenas de novos Estados. Curioso é que nenhuma região, mesmo as mais ricas, mantém-se alheia ao assunto. Daí as propostas de desmembramento tanto de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná quanto de Goiás, Bahia, Mato Grosso, Maranhão, Amazonas, Pará e Piauí. O Piauí marca presença no debate desde 1990, quando este modesto escritor, então deputado federal, propôs a emancipação do Gurgueia. Atualmente, dois projetos, de idêntico teor, tramitam no Congresso Nacional dispondo sobre a realização do competente plebiscito: um na Câmara, datado de 1994, de autoria do deputado Paes Landim, com substitutivo do deputado Júlio César, já contando com pareceres favoráveis de três comissões técnicas; e o outro, apresentado no Senado, em 2007, pelo senador João Vicente Claudino, que acaba de receber parecer favorável do relator na Comissão de Constituição e Justiça. Trata-se da mais ousada tentativa de resgatar o Piauí do círculo vicioso da pobreza, no qual historicamente se enredou. Eis o paradoxo desse círculo vicioso: o Piauí, mesmo reconhecidamente rico em recursos naturais, continua pobre, social e economicamente. É pobre porque não tem para investir e não tem porque não investe. E olha que temos tentado toda sorte de engenharias para reverter essa humilhante posição. Num rasgo de audácia e pioneirismo, até já mudamos a capital para a margem do Parnaíba, abrindo caminho, por via da navegação, para inaugurar uma nova onda de desenvolvimento do Piauí. Contudo, a verdade, nua e crua, é que o insuspeito IBGE, na frieza tumular de seus números e diagnósticos, continua frustrando o otimismo exagerado de alguns com a repetitiva exibição de degradantes indicadores de nossa pobreza, em geral os piores do País. Diante do que está posto, nada mais justo, necessário, oportuno e estratégico que busquemos uma saída redentora, definitiva, para o Piauí. Mas é preciso que as forças vivas do Estado participem dessa empreitada. Pois “o pior que nos poderia acontecer não é deixarmos de criar o Estado do Gurgueia, embora perdendo, mais uma vez, o bonde da história. O pior mesmo seria a criação de outros Estados que não o do Gurgueia, pois assim seríamos chamados a pagar a conta, sem qualquer compensação.” O meu livro Gurgueia: espaço, tempo e sociedade, cujo recente lançamento recebeu o patrocínio da Assembleia Legislativa, do Tribunal de Contas do Estado e da Academia Piauiense de Letras, é uma honesta contribuição aos estudos, pesquisas e debates em torno do assunto. Principalmente por descortinar aquele universo místico e desconhecido aonde começou o Piauí, realçando a saga e a têmpera de sua gente; a conquista dos sertões e a dizimação dos nativos; Mafrense e seus latifúndios sesmeiros; os municípios, seus líderes e história; os coronéis do sertão, oligarquias e jagunços; as jornadas guerreiras pela Independência e contra a agressão paraguaia; a Balaiada e outros levantes da cidadania; as matas, chapadas, caatingas e serras; os rios, lagoas, vales e bacias hidrográficas; a revolução verde nos cerrados; os parques nacionais, sítios arqueológicos e suas pinturas milenares; as velhas cidades dos tempos da conquista; a navegação do Parnaíba e o nascer das cidades ribeirinhas; os artistas, atletas, poetas e escritores; a bibliografia regional; as lendas e outras manifestações da cultura popular; o jeito peculiar de dizer e fazer as coisas. E muito mais. Com tão variado repertório, outra pretensão não teve o autor senão subsidiar e qualificar o debate, elevando-o ao nível da seriedade que o tema está a merecer. Gurgueia, apenas um sonho? Pode ser, mas não será certamente um sonho de poucos. E quando muitos sonham, é o começo da realidade, já atestava o imortal Goethe.
Finalizando, quero agradecer o apoio recebido das autoridades já nominadas,
de seus colaboradores e da imprensa. Agradecimentos especiais vão também
para o estimado amigo, acatado jornalista e talentoso acadêmico Zózimo
Tavares, baita representante do que de melhor existe em nosso meio
intelectual. Ele deu um baile de apresentação, pois, não sendo
canguinho, esbanjou talento. Também pudera: ao ser convidado, não
meteu crisipa. Sameado por novidades, não estruiu o seu
tempo nem a nossa lida, e, lorde como sempre, pegou uma
ponga na obra, logo cuidando de enzuquir a plateia de linguajar
emprial ao gurgueiano. Chegou até a enticar com este escriba,
dando corda sobre coisas de 1964. Não importa, pois nosso licute
é grande. E sempre dou valor à competência. Daí poder dizer alto e
bom som: suas palavras, mestre Zózimo, enriqueceram grandemente esta noite,
valorizaram o livro e desvaneceram este autor. E quem bamburrou fomos
todos nós, pois tudo veio de godes.
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