MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

FAZENDA BREJO DO MOCAMBO E SUA IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO HISTÓRICO DO PIAUÍ

 

(*) Oton Lustosa

 

Discurso proferido em solenidade de inauguração de capela e museu, na Fazenda Mocambo, no município de Parnaguá-PI, em 15.7.2011.

 

             Quinze de julho de 2011. Pisamos o chão do calo velho da Fazenda Brejo do Mocambo, no extremo sul do Piauí. Para localizar o lugar exato da Capela e redescobrir túmulos e lápides, removeram-se troncos majestosos de madeira de lei e fizeram-se escavações com mais de metro de profundidade. Sob a iniciativa de Edilson de Araújo Nogueira, com o apoio irrestrito do proprietário da gleba, Sr. Bismark Lustosa Nogueira, a imprescindível ajuda de parentes, amigos e várias outras pessoas, reergueu-se a Capela que ora se inaugura e nela se instala o Museu, com documentos, fotografias e mobiliário, que bem expressam a importância da família Lustosa da Cunha no contexto histórico, econômico, social e político do Piauí, durante todo o século XIX e início do século XX. Senão vejamos.           

             Nos idos de 1745, bem antes da instalação da Vila de Parnaguá – que ocorrera a 3 de junho de 1762 -, aqui chegava o português José da Cunha Lustosa, casado com Helena Camargo de Souza.  Depois de breve estadia no oeste baiano, demanda o sertão do Piauí e vem parar exatamente aqui no Brejo do Mocambo[1], onde estamos hoje e onde nasceram todos os seus filhos, entre os quais aquele que viria a ser o líder do clã, o coronel José da Cunha Lustosa Filho – o pai dos Barões e do Marquês de Paranaguá, o chefe de uma numerosa família que povoou esta vastidão de terras e as fez produtivas com a criação de gado, desde as nascentes do Paraim até a foz do Gurgueia.   

            Tempos depois, coube a seu filho primogênito, José da Cunha Lustosa (Neto), a partir dos quatorze anos, órfão de pai[2], exercer a chefia dos negócios da família e se transformar no maior fazendeiro da região e na maior liderança política do sul do Piauí. Estou a falar do Barão de Paraim, nascido neste chão da Fazenda Mocambo, aqui prosperou, liderou politicamente, faleceu com 75 anos de idade e aqui se encontra sepultado ao lado dos pais, dos avós e de muitos outros membros da família.  Homem de poucas letras, educado no recesso do lar e instruído aqui mesmo por algum mestre-escola, demonstrou inaudita visão de futuro ao encaminhar seus irmãos, irmãs e demais parentes na conquista de boas relações sociais e de grande acumulação de bens de raiz. Não fosse o seu tirocínio e o seu irrestrito apoio, por certo o seu irmão, João Lustosa da Cunha, aquele que mais tarde seria o Marquês de Paranaguá e o maior entre os políticos piauienses, não teria partido para os estudos em Salvador e para o bacharelato em Olinda. 

            Pela expressividade de sua atuação econômica e por sua liderança política, José da Cunha Lustosa Neto conquista altos cargos na administração pública da Província, tendo exercido os cargos de Comandante da Guarda Nacional em Parnaguá, Deputado Provincial, Chefe dos Índios na Província do Piauí, além de ser agraciado com o título nobiliárquico de Barão junto à Corte de Pedro II. Nas páginas da História do Piauí não há registros de que este Senhor da Fazenda do Mocambo, dotada de senzala e pelourinho, tenha sido dado a práticas autoritárias, violentas ou sanguinárias. É certo que a violência fratricida aqui chegou, alastrando-se pelos municípios de Parnaguá, Corrente e todo o extremo sul do Piauí, mas veio com as ambições do garimpo da maniçoba e com as intolerâncias da política partidária. Registre-se, porém, que tudo isto se deu muitos anos mais tarde, quando já eram sepultados os três nobres varões do Mocambo: José da Cunha Lustosa, o Barão de Paraim; José Lustosa da Cunha, o Barão de Santa Filomena; e João Lustosa da Cunha Paranaguá, o Conselheiro do Imperador Pedro II, o Marquês de Paranaguá.  

            Quero destacar a figura de João Lustosa da Cunha, o Marquês de Paranaguá, nascido aqui, debaixo das telhas da velha Fazenda do Mocambo, à beira do brejo do mesmo nome.  Fazenda à moda piauiense dos idos oitocentistas: com a casa-grande, o curral de toras, o grande pátio e as vastidões de campinas, veredas e baixões; os magotes numerosos de curraleiras e barbatões a pejar os pastos de capim mimoso e jitiranas em flor. Moço inteligente, fez-se bacharel em Pernambuco, na Faculdade de Direito de Olinda.  Casa-se com uma jovem de importante família baiana e ergue-se genialmente através dos degraus da política provincial e nacional em pleno apogeu do Segundo Reinado.  Intelectual com grande preparo humanístico, jurídico e literário. De seus discursos parlamentares como deputado geral pelo Piauí e como senador vitalício do Império e de suas conferências como ministro de várias pastas, atualmente, acessíveis em livro de biografia e em meio virtual, pode-se concluir que se tratava de um político de alto espírito democrático, que sabia ouvir os adversários e os combatia com lhaneza no trato, sempre no campo das ideias e das constatações documentais.  O seu currículo político-partidário é o mais rico entre todos os daqueles que fazem a História do Piauí de ontem e de hoje. Foi magistrado, deputado provincial pelo Piauí e Bahia, chefe de polícia do Piauí e do Rio de Janeiro, deputado-geral pelo Piauí em cinco legislaturas, senador vitalício do Império, conselheiro do Império, presidente das Províncias do Maranhão, de Pernambuco, da Bahia, ministro da Justiça, ministro da Guerra, ministro dos Estrangeiros, ministro da Marinha, ministro da Fazenda e presidente do Conselho de Ministros. Visconde e depois Marquês de Paranaguá.  Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de que foi presidente.[3] É patrono da cadeira 18 da Academia Piauiense de Letras, fundada em 1917.  Faleceu o Conselheiro Paranaguá em 9 de fevereiro de 1912.  À data de fundação da Academia Piauiense de Letras, maior instituição cultural do Estado, se vivo fosse, certamente teria sido convidado a assumir uma das cadeiras como co-fundador deste Sodalício.

              A grande obra do Marquês de Paranaguá, em prol do Piauí e do Brasil, é encontrada nos anais da política partidária e nos registros burocráticos da organização jurídico-administrativa do País. Era um pensador do reinado de Pedro II, de quem fora amigo pessoal e um dos seus prediletos conselheiros. Durante a Guerra do Paraguai, deflagrada em 1864, ministrou instruções políticas ao valoroso Comandante das Forças Militares Brasileiras, Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, e mais tarde, em plena conflagração, ao lado do Imperador e no enfrentamento a grave crise política, soube convencer Caxias a continuar à frente do Exército e vencer a guerra em janeiro de 1869.[4]  No Piauí, os seus irmãos José da Cunha Lustosa, Barão de Paraim; e José Lustosa da Cunha, Barão de Santa Filomena, participaram ativamente deste desenlace vitorioso de nossa Pátria, quando enviaram para o fronte de batalha o 2º Corpo de Voluntários, formado genuinamente por piauienses do Sul do Piauí, à frente o irmão mais moço, José Lustosa da Cunha, o Barão de Santa Filomena.

             Por estas e outras razões históricas é que este momento ganha vulto. Aqui se lança o livro Sesmaria do Mocambo – Berço dos Nobres, de autoria do advogado e historiador Edilson de Araújo Nogueira; e aqui se entrega à visitação pública a Capela e o Museu, com rico acervo memorialístico a respeito desses antepassados ilustres. Procede-se a este resgate histórico – reconheça o Piauí por suas entidades culturais e governamentais -, à custa de grande devotamento e inusitado desprendimento destes piauienses do extremo sul, que não hesitaram em empregar dinheiro e tempo nesta empreitada cívica, todos movidos pelo amor telúrico e pela grave responsabilidade de redescobrir, honrar e conservar a história de vida daqueles que no passado concorreram para o progresso do Piauí e do Brasil.

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