MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

GURGUÉIA: DA UTOPIA À REALIDADE, UM NASCIMENTO DESEJADO

 

(*) Delite Conceição Rocha Barros Lemos

 

Para escrever sobre o Gurguéia, quero me reportar ao poeta Juvenal Galeno, grande ícone da poesia no Brasil, autor de lendas e canções populares, nascido no Ceará em 1836. Ele diz o seguinte:

 

Se as nossas leis não vigoram,

Se a morte todos deploram

De nossa constituição?...

Então, então

Eu não quero tal governo,

Já mudei de opinião!

 

Nenhum govêrno me serve,

Tenha o nome que tiver,

Se entre o povo com desvêlo,

Educação não houver;

Se imperar o patronato;

Se a corrupção se exercer;

Se não houver liberdade,

E também moralidade;

Nas figuras do poder!...

 

Vou me ater às expressões que estão postas na Constituição Federal e que são citadas pelo poeta; leis, educação e liberdade. Uma expressão está vinculada a outra no contexto das relações humanas. Necessitamos, pois, de leis para melhor organização do estado, necessitamos também de educação e liberdade para nos expressarmos e conduzirmos com transparência ações plurais e dentre elas, a luta pela divisão do Estado do Piauí.

As expressões que destaquei em negrito e que incomodavam Juvenal Galeno no início do século XIX se aplicam na atualidade e continuam a incomodar muitas pessoas mesmo já transcorridos quase duzentos anos.

Em 1988, movida pelo calor da juventude, percebia a apatia e a mordaça em que vivia o povo do extremo sul do Piauí. Região abandonada e isolada pelo poder político do estado que na sua maioria só aparecia em períodos eleitoreiros a exceção pelos filhos da região e apaixonados por aqueles rincões. Esses políticos, com exímia capacidade de persuasão, barganhavam  votos sem qualquer projeto consistente visando o desenvolvimento e ou superação das desigualdades daquela região.

Clamo, portanto, ao povo do Piauí que lute pela liberdade das amarras do patronato. Necessário se faz que se posicionem aqueles que conhecem a região sul e que vivem sob as determinações daqueles que nada fizeram pelo nosso Estado e que se põem hoje em movimento contrário à divisão deste.

O Gurguéia precisa nascer, antes que o deserto tome conta. Douglas Machado, Cineasta Piauiense, em seu filme “Um Corpo Subterrâneo”, fala sobre histórias de vida na perspectiva do outro, faz um passeio por todo o Piauí através dos cemitérios. Inicia a filmagem em Barra Grande litoral Piauiense onde percebo ai, o símbolo da vida – água – paz - natureza e finaliza a filmagem na cidade de Gilbués, região desértica – símbolo de morte.   Gosto muito deste filme e me questiono sempre sobre o que mais pode ser visto além das histórias de vida contadas ali. Frente as minhas reflexões não percebo nada mais além das limitações em que estamos inseridos, um povo interiorano fadado à morte.

As minhas vivências também contrapõem a esta visão. Vejo também um povo sufocado pela dor, talentos desperdiçados pela falta de oportunidade e que ao sinal de qualquer porta que se abre, se apega com todas as forças e se lança para as conquistas. Portanto, um povo resiliente.

Vejamos que as forças produtivas daquela região; quer seja através do celeiro agropecuário ou da tradicional qualidade do ensino e investimentos culturais estão em decadência. É indiscutível o quanto nos últimos anos produtores agrícolas vindos do sul do país têm investido na região do Gurguéia e mesmo com avanços consideráveis na produção de grãos não se tem estrutura básica para escoamento.

No que se refere à educação se nos reportarmos ao extremo sul do estado e especificamente à região de Corrente e fizermos uma retrospectiva histórica vamos encontrar ali o berço da educação piauiense. Foi no início do século XX que foi criado por norte americanos da religião Batista o 1º Jardim de Infância do Piauí e por outro lado padres Católicos Diocesanos e Mercedários também desenvolviam ações educativas e evangelizadoras acreditando no desenvolvimento necessário e urgente do povo daqueles rincões.

Durante muito tempo aquela região foi referência em educação e produção agropecuária. Forasteiros e filhos da terra que acreditavam na região investiram, lutaram, esgotaram suas forças e o progresso não chegou, alguns desistiram.

O que se tem observado ultimamente é o mesmo que nos referimos há 20 anos, a necessidade de um povo liberto das amarras da “politicagem tupiniquim”. Para entender melhor, verifico que hoje existe uma total decadência comparada há outros tempos. Vimos políticos do norte do Estado, também eleitos pelo sul, que não apresentam projetos para aquela região, que não conhecem as demandas, as dificuldades vividas por aquele povo, pois lá só visitam em tempos de campanhas eleitorais.

Nesse sentido, lutamos por uma melhor de qualidade de vida; por mais escolas e professores qualificados; por hospitais; por maternidades; por estradas estaduais trafegáveis interligando municípios; infraestrutura básica para atrair investimentos privados; aproveitamento das riquezas naturais por deputados, senadores e governador gurgueiense que possam pensar, administrar e lutar por uma região que os piauienses não conhecem.

 

* Mestra em Ciências da Educação, Psicóloga Clínica e Escolar/Educacional (delite@uol.com.br)

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