(Publicado no site www.adufpi.org.br)
O debate que hora se institui em diversos espaços de construção e
divulgação de informações e conhecimentos, sobretudo, nas mídias:
televisivas e internet, acerca do movimento emancipatório
político-administrativo do Estado do Gurguéia, instiga-nos obrigatoriamente,
de forma desafiadora, a emitir parecer e posicionamento crítico acerca do
tema em voga.
Ao analisar os discursos estabelecidos, sob ponto de vista acadêmico,
podemos constatar duas grandes correntes antagônicas de pensamentos: (a)
Movimento Pró-Criação do Estado do Gurguéia, como uma expressão
emancipacionista do Sul do Piauí; (b) Movimento Piauí Unido, com a alegativa
de fortalecimento da territorialidade e da felicidade por inteiro.
Os atores sociais protagonistas desse debate na busca do convencimento da
opinião pública em favor da sua proposta acerca da emancipação ou não, do
Estado do Gurguéia, trás nas linhas e entrelinhas, conscientemente ou não,
fragmentos de conhecimentos fundamentados nas ciências políticas, na
psicologia, na sociologia, na ontologia, enfim, nos diversos ramos da
ciência, para melhor dialogar com sua platéia, o povo envolvido.
Compreendemos que a essência fomentadora desse debate passa necessariamente
pela capacidade de convencer o seu interlocutor, por meio de dados, números
da economia, avanços sociais, melhoria da qualidade de vida, como força de
argumentação laudativa.
Assim, torna-se necessário enxergar e compreender dialeticamente o que está
posto para além do audível e visível, em cada discurso proferido. Cabe-nos
ressaltar que na Grécia Antiga, a dialética era considerada a arte de
argumentar no diálogo. Na temporalidade do tempo presente, a dialética é
compreendida como o modo de pensar as contradições da realidade, isto é, o
modo de compreender essa realidade como essencialmente contraditória e em
permanente transformação. A verbalização dialética do contraditório se
expressa na forma diferente de pensar acerca do objeto observável.
Em Hegel, a dialética é idealista. Aborda o movimento do espírito, do ser,
do pensamento. Expressa, pois, a natureza verdadeira e única da razão e do
ser que são identificados um ao outro e se definem segundo o processo
racional que procede pela união incessante de contrários, tese e antítese,
posteriormente, a síntese.
Para Marx, a dialética é um método de análise da realidade, que vai do
concreto ao abstrato e que oferece um papel fundamental para o processo de
abstração, isto é, postula que as leis do pensamento correspondem às leis da
realidade. A dialética não é só pensamento; é pensamento e realidade a um só
tempo. Assim, a realidade é contraditória, com o pensamento dialético.
Daí, como sujeitos históricos, consubstanciados na dialética da realidade
contraditória, com fulcro no debate acerca dos movimentos antagônicos
expressos, iluminado pela possibilidade concreta de desenvolvimento e
mudanças numa velocidade mais acelerada; nasce potencialmente forte, a
capacidade de ousar de um povo; de gritar e dizer: estamos incomodados com
essa realidade cruel de dificuldades de acesso; de histórica negação de
políticas públicas; da incipiência de infraestrutura básica que tornaram
grotescas as diferenças regionais; além da grande extensão territorial que,
em tese, facilita a impulsão do negligenciamento institucional.
O movimento Piauí Unido contesta a tese emancipacionista e tenta a todo
custo, incutir de forma pejorativa, o rótulo divisionista aos adeptos do
anseio emancipatório da região sul. Porém, não se trata da divisão
litigiosamente raivosa, trata-se dialeticamente apenas da separação de
corpos de um casamento falido, civilizado e republicanamente. Portanto, é a
separação territorial e político-administrativa de duas regiões que convivem
harmonicamente juntas, porém, separadas pelos parcos investimentos.
Ressalta-se que nessa separação emancipatória que se pretende, não há
divisão, mas, sim, a soma de esforços potencializadores do crescimento e
desenvolvimento de duas regiões separadas por uma linha territorial
imaginária, porém, dialeticamente juntas.
Diante dessa reflexão uma questão se impõe: porque temer a separação
emancipatória? A quem interessa o discurso do Piauí Unido e feliz? A tese da
argumentação que o novo Estado irá oxigenar uma oligarquia política do sul,
em declínio, não se sustenta, é frágil. Vivemos num Estado democrático de
direito em que se impõe a vontade da maioria. Somos cidadãos livres para
argumentar e requisitar nossos direitos. Portanto, não antevejo imposição
e/ou perpetuação de oligarquias no poder do novo Estado que irá surgir, ao
contrário, vejo um povo ávido pelas mudanças que estão por vir.
Uma outra tese argumentativa que se expressa como solução para suplantar as
demandas do sul é o aumento de investimentos, sobretudo, nas áreas de saúde,
educação e infraestrutura, além da atração de mais empreendimentos
econômicos para o Piauí Unido e feliz. Ocorre que, infelizmente, há mais de
200 (duzentos) anos estamos esperando por tais investimentos, historicamente
negligenciados, sobretudo, ao povo do sul. Estima-se, portanto, que para
chegar ao patamar de investimento e desenvolvimento que o Estado requer
passará por mais 100 (cem) anos na fila de espera. Então, porque esperar
essa lerdeza e letargia se, se podemos encurtar caminhos?
Nessa mesma linhagem de pensamento, ao invocar a sentimentalidade
identitária de um povo para justificar que a emancipação do Gurguéia
fragilizará a cultura do Piauí, também não prosperará, pois não se pode
compreender uma cultura enjaulada, fisicamente, em amarras de limites
territoriais. A cultura de um povo transcende fronteiras. A manifestação da
cultura é, pois, de interesse público, é de interesse da humanidade,
portanto, não tem dono específico.
Assim, compreendemos que as teses do movimento Piauí Unido faltam-lhe força
argumentativa para nos convencer, portanto, serão (des)construídas
paulatinamente.
Então, a qualquer custo, o movimento lança mão ao seu grande trunfo: as
alegativas com os gastos de pessoal e burocracia administrativa que o novo
território irá produzir. Vale ressaltar que a eclosão do Estado do Gurguéia,
significará agregação de receitas do bolo orçamentário do Estado-Nação para
a nova unidade territorial, sem prejuízos para o Piauí, isto é, deslocará
partes da receita do bolo orçamentário para a construção da receita da nova
parte.
Dessa forma, o grande beneficiário será o povo, pela proximidade com o
centro do poder, em tese, possibilitará oportunidades de empregos, melhoria
da qualidade de vida, facilitado pelos investimentos necessários a serem
incrementados nas diversas áreas administrativas do novo Estado para tornar
possível a prosperidade da região em apreço.