MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

A DIALÉTICA DE HEGEL E MARX NA EMANCIPAÇÃO DO ESTADO DO GURGUÉIA

 

(*) Nilson Fonseca Miranda

 

(Publicado no site www.adufpi.org.br)



O debate que hora se institui em diversos espaços de construção e divulgação de informações e conhecimentos, sobretudo, nas mídias: televisivas e internet, acerca do movimento emancipatório político-administrativo do Estado do Gurguéia, instiga-nos obrigatoriamente, de forma desafiadora, a emitir parecer e posicionamento crítico acerca do tema em voga.

Ao analisar os discursos estabelecidos, sob ponto de vista acadêmico, podemos constatar duas grandes correntes antagônicas de pensamentos: (a) Movimento Pró-Criação do Estado do Gurguéia, como uma expressão emancipacionista do Sul do Piauí; (b) Movimento Piauí Unido, com a alegativa de fortalecimento da territorialidade e da felicidade por inteiro.

Os atores sociais protagonistas desse debate na busca do convencimento da opinião pública em favor da sua proposta acerca da emancipação ou não, do Estado do Gurguéia, trás nas linhas e entrelinhas, conscientemente ou não, fragmentos de conhecimentos fundamentados nas ciências políticas, na psicologia, na sociologia, na ontologia, enfim, nos diversos ramos da ciência, para melhor dialogar com sua platéia, o povo envolvido. Compreendemos que a essência fomentadora desse debate passa necessariamente pela capacidade de convencer o seu interlocutor, por meio de dados, números da economia, avanços sociais, melhoria da qualidade de vida, como força de argumentação laudativa.

Assim, torna-se necessário enxergar e compreender dialeticamente o que está posto para além do audível e visível, em cada discurso proferido. Cabe-nos ressaltar que na Grécia Antiga, a dialética era considerada a arte de argumentar no diálogo. Na temporalidade do tempo presente, a dialética é compreendida  como o modo de pensar as contradições da realidade, isto é, o modo de compreender essa realidade como essencialmente contraditória e em permanente transformação. A verbalização dialética do contraditório se expressa na forma diferente de pensar acerca do objeto observável.

Em Hegel, a dialética é idealista. Aborda o movimento do espírito, do ser, do pensamento. Expressa, pois, a natureza verdadeira e única da razão e do ser que são identificados um ao outro e se definem segundo o processo racional que procede pela união incessante de contrários, tese e antítese, posteriormente, a síntese.

Para Marx, a dialética é um método de análise da realidade, que vai do concreto ao abstrato e que oferece um papel fundamental para o processo de abstração, isto é, postula que as leis do pensamento correspondem às leis da realidade. A dialética não é só pensamento; é pensamento e realidade a um só tempo. Assim, a realidade é contraditória, com o pensamento dialético.
Daí, como sujeitos históricos, consubstanciados na dialética da realidade contraditória, com fulcro no debate acerca dos movimentos antagônicos expressos, iluminado pela possibilidade concreta de desenvolvimento e mudanças numa velocidade mais acelerada; nasce potencialmente forte, a capacidade de ousar de um povo; de gritar e dizer: estamos incomodados com essa realidade cruel de dificuldades de acesso; de histórica negação de políticas públicas; da incipiência de infraestrutura básica que tornaram grotescas as diferenças regionais; além da grande extensão territorial que, em tese, facilita a impulsão do negligenciamento institucional.

O movimento Piauí Unido contesta a tese emancipacionista e tenta a todo custo, incutir de forma pejorativa, o rótulo divisionista aos adeptos do anseio emancipatório da região sul. Porém, não se trata da divisão litigiosamente raivosa, trata-se dialeticamente apenas da separação de corpos de um casamento falido, civilizado e republicanamente. Portanto, é a separação territorial e político-administrativa de duas regiões que convivem harmonicamente juntas, porém, separadas pelos parcos investimentos. Ressalta-se que nessa separação emancipatória que se pretende, não há divisão, mas, sim, a soma de esforços potencializadores do crescimento e desenvolvimento de duas regiões separadas por uma linha territorial imaginária, porém, dialeticamente juntas.

Diante dessa reflexão uma questão se impõe: porque temer a separação emancipatória? A quem interessa o discurso do Piauí Unido e feliz? A tese da argumentação que o novo Estado irá oxigenar uma oligarquia política do sul, em declínio, não se sustenta, é frágil. Vivemos num Estado democrático de direito em que se impõe a vontade da maioria. Somos cidadãos livres para argumentar e requisitar nossos direitos. Portanto, não antevejo imposição e/ou perpetuação de oligarquias no poder do novo Estado que irá surgir, ao contrário, vejo um povo ávido pelas mudanças que estão por vir.

Uma outra tese argumentativa que se expressa como solução para suplantar as demandas do sul é o aumento de investimentos, sobretudo, nas áreas de saúde, educação e infraestrutura, além da atração de mais empreendimentos econômicos para o Piauí Unido e feliz. Ocorre que, infelizmente, há mais de 200 (duzentos) anos estamos esperando por tais investimentos, historicamente negligenciados, sobretudo, ao povo do sul. Estima-se, portanto, que para chegar ao patamar de investimento e desenvolvimento que o Estado requer passará por mais 100 (cem) anos na fila de espera. Então, porque esperar essa lerdeza e letargia se, se podemos encurtar caminhos?

Nessa mesma linhagem de pensamento, ao invocar a sentimentalidade identitária de um povo para justificar que a emancipação do Gurguéia fragilizará a cultura do Piauí, também não prosperará, pois não se pode compreender uma cultura enjaulada, fisicamente, em amarras de limites territoriais. A cultura de um povo transcende fronteiras. A manifestação da cultura é, pois, de interesse público, é de interesse da humanidade, portanto, não tem dono específico. 

Assim, compreendemos que as teses do movimento Piauí Unido faltam-lhe força argumentativa para nos convencer, portanto, serão (des)construídas paulatinamente.

Então, a qualquer custo, o movimento lança mão ao seu grande trunfo: as alegativas com os gastos de pessoal e burocracia administrativa que o novo território irá produzir. Vale ressaltar que a eclosão do Estado do Gurguéia, significará agregação de receitas do bolo orçamentário do Estado-Nação para a nova unidade territorial, sem prejuízos para o Piauí, isto é, deslocará partes da receita do bolo orçamentário para a construção da receita da nova parte.

Dessa forma, o grande beneficiário será o povo, pela proximidade com o centro do poder, em tese, possibilitará oportunidades de empregos, melhoria da qualidade de vida, facilitado pelos investimentos necessários a serem incrementados nas diversas áreas administrativas do novo Estado para tornar possível a prosperidade da região em apreço.

 

(*) Professor Doutor da UFPI

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