(Publicado no Jornal Diário do Povo, em 24/10/2011 e no site 180 Graus)
Lanço a indagação a propósito da campanha que prega a criação do Estado do
Gurgueia, que ganhou fôlego e passou a ser combatida ferozmente pelo
movimento "Piauí Unido". A discussão em torno do tema está ainda no começo.
Conquanto tenha sido contaminada por um viés palanqueiro e academicista, ela
merece - até por isso mesmo - ser acompanhada de perto.
O Piauí é um Estado com vocação para o atraso. Dos nove Estados nordestinos,
o Piauí foi o último a conseguir a sua universidade, com décadas de atraso,
diga-se de passagem. Há quase um século tenta construir um porto marítimo e
não consegue. Perdeu o bonde da história. Os espaços já foram ocupados pelo
Ceará, pelo Maranhão e por Pernambuco.
Que grandes indústrias privadas o Piauí atraiu? Que empreendimentos públicos
de vulto o Estado conseguiu? O último projeto federal relevante foi o da
barragem de Boa Esperança. Assim mesmo, passados mais de 40 anos, ainda está
incompleto. Faltam as eclusas. O projeto seguinte, o biodiesel, apresentado
como a redenção da lavoura, já no governo Lula, foi um fiasco total!
O caso do Hospital Universitário é emblemático. Aqui na capital, nas barbas
do poder, ele está pronto, todo equipado, depois de mais de 20 anos, e não é
aberto ao atendimento da população, por incompetência de nossa elite
política. O Centro de Convenções de Teresina, fechado há mais de dois anos
para reforma, é outro atestado público de nossa incompetência crônica e de
nosso descaso.
Enquanto isso, o Gurgueia tem vontade de crescer. Mesmo lutando nas
condições as mais adversas, pela falta de infra-estrutura que o governo nega
reiteradamente, a região dá um salto em sua produção de grãos. O problema
agora é encontrar estradas para escoar a megaprodução e para armazená-la.
A criação do Gurgueia é uma hipótese a ser considerada pelos piauienses. O
modelo de desenvolvimento que aí está em vigor há 250 anos não foi capaz de
tirar o estado do atraso. Muito pelo contrário, só tem perpetuado esta
condição incômoda.
E, para concluir: "Piauí Unido". Unido em torno de quê? E para quê?