MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

ESTADO DO GURGUEIA

 

(*) João Brandão Júnior

 

(Publicado no Jornal Diário do Povo, 2ª pag. em 29/10/2011)

Estamos vivenciando uma onda de discussões e manifestações sobre a criação ou não do Estado do Gurguéia, através do desmembramento da Região Sul do Estado do Piauí. Essa discussão é boa, porém muito antiga. Apenas vem a cada ano se intensificando e elevando-se os argumentos para que esta idéia seja executada. Sabemos que ainda há muito caminho a ser percorrido, mas este é um dos momentos mais importante, onde a sociedade começa a debater e definir posições.

Eu nasci na parte Norte de nosso estado, precisamente de Campo Maior, berço da luta pela nossa libertação dos domínios portugueses, apesar de nossas desvantagens bélicas. Por isso, creio que não devemos temer a nada, e nem ter o receio de recomeçar.

O Estado do Piauí tem uma área territorial de 251.576,64 km2, que equivale a 1,69 vezes a área do Estado do Ceará e a 2,56 vezes a área do Estado de Pernambuco. No entanto, nossa densidade demográfica é de apenas 12,4 hab/km2 (CE: 56,76 hab/km2 e PE: 89,63 hab/km2), segundo o Censo do IBGE de 2010. Isso indica um elevado índice de evasão populacional que há em nosso estado. Os motivos para isso são diversos, mas destaco a saída dos jovens para outros estados em busca de trabalho, às vezes até “escravo”, por não ter ainda alguma habilidade profissional, e, na melhor das opções, a procura por uma continuidade em sua formação educacional ou profissional. Para quem conhece o Piauí, as oportunidades de um bom emprego são raras, principalmente nas cidades localizadas na região Sul de nosso estado. O PIB do Piauí no ano 2008, segundo o IBGE, foi de apenas R$ 16.761 milhões, valor que representa a medade do PIB do Maranhão (R$ 38.487 milhões) e, praticamente, ¼ do PIB do Ceará (R$ 60.099 milhões). O Governo Federal anterior concedeu para os Estados do Ceará, Pernambuco e Maranhão, nossos vizinhos, uma refinaria de petróleo (investimento da ordem de US$ 11 a 20 milhões para cada um) que irá, no mínimo, elevar seus PIB’s em 25% e o Estado da Bahia, outro vizinho, recebeu recursos da ordem de US$ 3 bilhões para ampliar a Refinaria Landupho Alves.

No momento, estes estados vizinhos, exceto o Maranhão, estão passando por uma profunda modernização em suas infra-estruturas a fim de atender as exigências da FIFA para Copa do Mundo de 2014. Melhorias nas rodovias, terminais rodoviários e aeroportuários, vias urbanas, estádios, comunicações, hotéis, restaurantes etc, com recursos públicos e privados. Tudo isso vai ficar como legado, após o torneio esportivo internacional, e ajudará a elevar o movimento turístico e a arrecadação destes estados.

Enquanto isso, nós estamos aqui discutindo território. Pior, há grupos que acham que está tudo bem, bonito e em pleno desenvolvimento. Nada deve mudar e sair em busca de alternativas para o progresso do Piauí seria defender interesses pessoais ou familiares. É obvio que não tem nada normal nesta história e se há interesses, esses interesses estão do lado de quem não quer mudanças radicais. Se nós aqui do Norte do estado estamos reclamando a falta de políticas desenvolvimentistas, por parte do Governo Federal, para a nossa região, o que diria o povo sofrido do Sul, que são duplamente esquecidos pelos Governos Estadual e Federal.

Segundo Abramovay (2000), o território mais que uma simples base física para as relações entre indivíduos e organizações: possui um tecido social, uma organização complexa, feita por laços que vão muito além de seus atributos naturais. Um território representa uma trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades. Embora o município seja uma importante unidade administrativa de um território, em algumas regiões o território ultrapassa os limites de um município, facilitando o processo de integração entre municípios.

Portanto, não adianta demonstrar falsa paixão argumentando uma união, que está provada, por mais de 200 anos, que não funciona politicamente, economicamente e administrativamente. Não tem as relações sociais de integração. Não conhecemos a parte Sul e nem eles conhecem a parte Norte de nosso Estado.  Não há rodovias federais e estaduais que interliguem, adequadamente, os municípios do Norte ao Sul e nem entre eles. Até agora, nenhum projeto real para desenvolvimento daquela região foi proposto pelo grupo que defende o continuísmo. Citam apenas como melhorias sociais os programas federais de distribuição do bolsa família e outros mais que não fazem a diferença substancial.  Seus argumentos se fundamentam, somente, nas riquezas minerais daquela região. Estas riquezas são da União e foi este mesmo argumento que usamos para conquistar a participação nos royalties do Pré-Sal, sem necessitar a união dos estados federados. Somos dois povos que apresentam, discretamente, características culturais diferenciadas, por falta desta integração. Eles têm fortes influências culturais de outros estados, principalmente, a Bahia e o Distrito Federal.

Os contrários a criação do Estado do Gurguéia também criticam devido aos custos que serão necessários para constituir um novo estado, com a criação de novos poderes executivo, legislativo e judiciário estaduais. Vale salientar que esses recursos sairão, principalmente, da União, que vem esbanjando dinheiro nos Estados vizinho, especialmente, naqueles que sediarão a Copa de 2014. Somente a reforma do Estádio Castelão de Fortaleza custará para os cofres públicos R$ 518 milhões, sem se falar das demais obras estruturais como metrô, vias urbanas, etc. E nós aqui com pena em investir em prédios que custarão muito menos que essa soma. Os cargos administrativos do novo estado serão preenchidos por concurso público para cidadãos de todo país e os políticos eleitos por voto secreto, como rege a Constituição.

A maior parte da força econômica, comercial e serviços do Piauí encontram-se instalados na parte Norte do estado. Ao Sul, o maior, e praticamente único em atividade, é a Hidrelétrica de Boa Esperança, que se localiza na cidade de Guadalupe e produz, no máximo, 237,3 MW. Para se ter uma idéia, só a Usina Termoelétrica Gera Maranhão, localizada no Município de Miranda do Norte – MA tem capacidade para produzir 330 MW. Somos, verdadeiramente, desprestigiados.

Agora, convido a você leitor a fazer uma simples reflexão: Se com atual arrecadação o Estado do Piauí não está conseguindo atender as exigências mínimas em saúde, educação, segurança e habitação, como podemos, continuando com essa mesma estrutura geográfica, sonhar em dar a volta por cima; incrementar, vertiginosamente, nossos índices de desenvolvimento, como está acontecendo com os nossos vizinhos, e fazer com que o povo de nosso campo continue alegres e satisfeitos agudando melhoras no local onde vivem?

Para mim, a alternativa mais inteligente seria dividimos nosso estado. Devemos criar o Estado do Gurguéia que para que ambos possam melhorar sua administração, com uma interação maior entre governantes e governados. Tornar possível uma melhor aplicação dos recursos uma melhor fiscalização por parte da sociedade. Segundo Bianchini (2001), desenvolvimento local é um processo de criação, de valorização e de retenção das riquezas de um território, progressivamente controlado pelo conjunto de habitantes. É o resultado da ação articulada do conjunto de diversos agentes sociais, culturais, políticos e econômicos, públicos ou privados, existentes no município e na região, para a construção de um projeto estratégico que orienta suas ações de longo prazo.

Quanto às belezas naturais existentes no Piauí, estas serão, indiscutivelmente, preservadas, porém melhor aproveitadas turisticamente. Vale salientar que, o Delta do Parnaíba, a Serra da Capivara, os Lençóis Maranhenses, Jericoacoara, a Floresta Amazônica etc, pertencem a todos nós brasileiros e temos livre acesso a todos estes ícones naturais.

Piauienses, é óbvio que para toda decisão espera-se resultados positivos e negativos. Neste caso, devemos abdicar das paixões, ato retrógrado, que não leva a nada e debater tecnicamente e respeitosamente este assunto, que para nós é primordial.

 

(*) Engenheiro Químico, brandjunior@hotmail.com

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