MATÉRIA SOBRE O GURGUÉIA

 

HUMORISTA EQUIVOCADO

 

(*) Raimundo Cazé

 

(Publicado no Jornal Diário do Povo, 4ª pag, em 29/10/2011)

 

O Estado do Piauí que o humorista João Cláudio defende que seja intocável em sua extensão territorial é o mesmo que ele tem comparado, tantas vezes, em seus shows e gravações, com o câncer, afirmando que a diferença é porque o câncer progride.

Não há safados, cínicos e nem cretinos entre os que defendem a criação do Estado do Gurgueia, assim como não há entre aqueles que defenderam a criação de outros Estados, no país, e municípios, sobretudo no Estado do Piauí, e também entre os que são contrários à criação do novo Estado.

É retrógrada a mentalidade dos que saíram na frente contra a emancipação da região sul do Piauí. Faz lembrar as famílias ignorantes do século 18, que não queriam que seus filhos se casassem e nem estudassem, só para terem mão de obra grátis e analfabeta.

A divisão territorial de um estado não é “guerra de secessão”, como bem disse o ex-deputado Jesualdo Cavalcanti, durante o primeiro debate sobre a divisão do Piauí, no dia em que a TV Cidade Verde, dando sequência ao que já vinha fazendo, comemorou o Dia do Piauí (19 de outubro), com uma programação especial.

Não merece reparo a direção da TV, por ter proporcionado o debate sobre a criação do Gurgueia. Lá estavam os dois lados, sendo que os contrários se comportaram mais “barulhentos”. Foi de alto nível o debate, coisa mesmo de sociedade civilizada. Uma enquete feita pela própria TV, na Internet, mostrou que 48% são a favor da emancipação, contra 52% dos contrários.

Quando afirma que o mundo evoluiu nas comunicações, com internet e celular, o humorista se esquece de que as pessoas do sul do Piauí que necessitam de assistência médica na capital precisam se deslocar por terra, sujeitas a morrer no caminho, devido à enorme distância. O celular e a internet serviriam apenas para marcar a consulta médica.

Não é verdade que as melhores estradas do Piauí se encontram na região sul. Também não se pode considerar a Barragem de Boa Esperança e a Serra da Capivara como as mais importantes obras do Estado. A primeira foi construída pelo governo federal e serve mais ao centro e norte do Piauí.

Vale salientar que a energia de Boa Esperança serviu primeiro às regiões centro e norte. Agora é que estão sendo concluídas as linhas de transmissão e implantado o Luz para Todos. A segunda é obra da natureza e não pode ser comparada com o Delta do Parnaíba.

No tocante a empregos, o humorista há de convir que um novo estado precisa da mesma estrutura dos já existentes, os três poderes e todas as medidas necessárias ao seu funcionamento. Não pode viver alheio ao conjunto de leis federais que exigem a realização de concurso público para o preenchimento dos cargos, responsabilidade fiscal e outros.

Nesse aspecto, o novo Estado já nasce com perspectivas para os jovens que se formam e não encontram mercado de trabalho. Muitos operários de mão de obra não qualificada terão trabalho na edificação da nova capital, como engenheiros civis.

O exemplo de Brasília ainda perdura. Existe ali uma organizada Colônia Piauiense, formada, em grande parte, por piauienses que saíram daqui como candangos e lá fixaram residência e prosperaram.

O humorista João Cláudio está convidado a citar quantos territórios emancipados ficaram piores do que eram antes, aqui e no exterior, e quantos territórios-troncos foram à falência por conta de emancipações.

Quanto a pegar em arma, essa arma será o voto do eleitor livre e consciente, e não o trabuco do radicalismo. O plebiscito para a criação de novos Estados é constitucional e abrange todo o universo e não apenas a parte que deseja ser independente.

O convite à guerra, feito pelo Humorista, é um equívoco lamentável. Criado o Estado do Gurgueia, teremos dois estados amigos, crescendo harmonicamente, com os intercâmbios que sempre existiram e tanto progresso têm proporcionado.

 

 

(*) Jornalista

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