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MATÉRIA
SOBRE O GURGUÉIA |
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A FAVOR DO GURGUEIA (Carta aberta aos piauienses) Marcos Oliveira Damasceno*
Publicado n o Jornal Diário do Povo, de 24/11/2011
De início, dizer que não sou simpatizante dessa expressão “dividir o Piauí”. Ela tem um viés desqualificador. Deixa a sensação de subtração. A verdade dos fatos não é essa. Nossa causa é cívica e legítima. Emancipar o Gurgueia, isso sim. Somar esforços. Multiplicar recursos financeiros. Aumentar a capacidade de resolução dos problemas sociais. Nossa proposta não é uma conveniência política, como alguns acham. É um clamor do povo. Uma vontade popular. E essa pauta transcende a questão dos mandatos ou dos governos. É uma questão de Estado. Está acima das questões pessoais e das representações políticas. Vejamos os fatos. Na emancipação do Sul do Piauí, historicamente, as maiores contribuições partiram de iniciativas particulares. Notadamente, de padres e bispos missionários. A presença do Estado, como um agente de transformação e de solução dos problemas, foi tímida. Essa é que é a verdade. Somente nos anos 80, do século XX, é que se percebe um protagonismo mais significativo por parte do governo estadual, capitaneado justamente por Jesualdo Cavalcanti, na emancipação do Sul. E tenho que dizer que, em regra, nossa representação no Legislativo estadual sempre foi boa. Nosso problema maior é que sempre fomos minoria. Podemos ver problema igual em outras regiões do Brasil. De fato, vivemos na contramão das questões históricas e geográficas do Piauí. Alguns, que querem apequenar o debate, ou desqualificar nossa causa, insinuam que Jesualdo Cavalcanti tem interesses particulares nisso. Ele nunca representou o atraso. Vejam vocês, que nosso nobre piauiense tem moral histórica para defender essa causa. Quando líder estudantil, vereador de Teresina, membro da OAB/PI, deputado estadual, secretário de Estado, deputado federal e conselheiro do TCE-PI apresentou um dos mais produtivos resultados socioeconômicos, e culturais, para nosso Piauí. De todos os tempos. Quem conhece, de fato, nossa terra sabe da sua honradez e do seu trabalho. Grande construtor. Notável progressista, que historicamente se agigantou pelo desenvolvimento do nosso Estado. Nos seus 40 anos de vida pública, jamais se encontrou algo que difamasse sua reputação. Pelo contrário, muitas obras e ações importantes. Ele é exemplo de vida e de cidadania para nós. Tem retidão moral, e uma história honrada. E agora, escritor imortal da Academia Piauiense de Letras, desponta-se como um profundo pesquisador dessa demanda, já secular. Vejam o exemplo do deputado estadual Fábio Novo. Por que ele é a favor, e o deputado estadual João de Deus é contra? Ambos são da mesma corrente partidária. Creio eu, que por um simples fato: Fábio Novo é da nossa região. Conhece melhor a realidade daqui. Não apenas no papel ou no mapa, mas in loco. Também uma demonstração de que nossa causa está acima de interesses político-partidários. Existem até aqueles que questionam, ou até afirmam, o risco da formação de uma nova oligarquia no Gurgueia. Pois bem. Abordo aqui um fato importante: depois da redemocratização do Brasil, e com a Constituição de 88 (1988), a realidade mudou. A ocorrência dessa prática política diminuiu muito, e enfrenta cada vez mais dificuldades em se prosperar. O pouco que existe se reciclou, agora “come alface”. Por sinal, a maior parte é da região Norte do Piauí. É preciso ainda alguns questionamentos. Será se os que são contrários ao Gurgueia, conhecem o processo de emancipação de um Estado? Parece que não. Nada será decidido em gabinetes, de portas batidas, por uma meia dúzia de pessoas. O povo decidirá tudo, e sempre que necessário. O processo será pela via democrática, e dentro da legalidade constitucional. Aliás, isso será problema nosso. Observo bem os argumentos daqueles que se posicionam contra. Vejo em alguns casos desinformação. Mas na maioria das vezes percebo que são contra por capricho pessoal, picuinha política ou conveniência ideológica. Isso é egoísmo. Estão quase como o povo do Estado do Rio de Janeiro, agindo com imperialismo. Questiono: será se eles conhecem a fundo a proposta do Gurgueia? Como nós conhecemos. Pelo menos já andaram aqui? Ou conhecem nossa região apenas pelo mapa? Recordo uma ocasião, de uma viagem de um jornalista de Teresina-PI à minha cidade, Dom Inocêncio-PI. Logo na saída, na capital, questionou-me sobre minha opinião referente ao Gurgueia. Disse-lhe que sou a favor. Ele sem cerimônia alfinetou-me: “Você, uma pessoa esclarecida, defender uma causa dessa!” Revidei dizendo: “Vamos a viagem. Quando chegarmos, quero sua opinião novamente.” Moral da história: logo na vinda, depois de Oeiras-PI, ele já havia mudado de opinião. Nunca tinha andando para o Sul do Piauí. Também li o artigo do nosso ilustre João Cláudio Moreno, filho de Piripiri-PI. Este escreveu sua posição e opinião. Muito bom. O debate serve para fortalecer as ideias, e até para esclarecimentos. Vamos aos fatos oportunos. Piripiri-PI foi desmembrada de Piracuruca-PI. Como bem observou Zózimo Tavares, hoje a cidade-filha está mais desenvolvida do que a cidade-tronco. Essa é a justificativa maior da emancipação de um município ou de um Estado. Há casos que existem amarras que impedem o desenvolvimento, que só uma emancipação resolve. É o caso do Gurgueia. Finalizo fazendo uma observação: respeitem nossa posição. Não denigram nossa imagem. Não somos coitados. Nem estamos pedindo piedade. Muito menos estamos assustados. Não temos medo e nem preguiça. Tais defeitos nós não temos. Somos um povo de valor histórico e trabalhador. Estamos, sim, convictos dessa causa. Vejo nesse projeto uma possibilidade ímpar de nós mesmos resolvermos nossos problemas. Queremos o Plebiscito. Uma consulta popular. Deixemos o povo se manifestar. Não é imposição, não queremos impor isso. É uma proposta, queremos propor. É um direito constitucional que nos assiste. Nosso papel até agora foi formar opinião. É um direito nosso. Vivemos num estado democrático de direito. Nosso sentimento se resume às palavras do extraordinário jornalista e escritor Zózimo Tavares, escritas no livro de Jesualdo Cavalcanti, a obra monumental “Gurgueia: espaço, tempo e sociedade”: “O Gurgueia já é um estado de espírito. Falta ser um Estado de direito.” *Escritor, doutor em Filosofia Política |
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