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MATÉRIA
SOBRE O GURGUEIA |
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MAMOGRAFIA NO SUL DO ESTADO
Luiz Ayrton Santos Júnior*
(Matéria publicada no Jornal Meio Norte - 09/01/2012)
Nos anos 1980-1999 o controle do câncer de mama em países em desenvolvimento como o Brasil estava relacionado à prática de políticas públicas que estimulassem o autoexame das mamas nas mulheres. Em 1994 a Sociedade Brasileira de Mastologia propagandeou a apresentação em cartazes e vídeos para TVs de comercial com a atriz Cássia Kiss que mostrava os seios e dizia “a cura está nas suas mãos” como um recado direto para que as mulheres examinassem suas mamas. Práticas de autoexame, portanto, foram úteis e ainda as são quando populações femininas não têm acesso aos médicos nem às mamografias. Entretanto com políticas públicas de controle do câncer de mama adequadas, os tumores são diagnosticados em sua fase mais inicial e, desta forma, de tão pequenos, são impalpáveis. Nessa situação, a prática do auto-exame passa a ser nociva porque faz entender a mulher que, caso não identifique nada de estranho nas suas mamas, poderiam ser consideradas livres da doença o que é um sério erro. O câncer de mama é uma doença perfeitamente controlável desde que a diagnostiquemos no começo permitindo cura de até 96%. Nos países desenvolvidos, onde o acesso ao diagnóstico e ao tratamento são precoces, os índices são animadores de controle da doença. Nestes países, as taxas de mortalidade vêm caindo ou encontram-se estáveis. Estes índices são aplicados também, em parte, ao nosso país onde campanhas de “autocuidado sobre a saúde das mamas” bem estabelecidas permitem que o diagnóstico precoce ocorra com frequência. Isto explica porque as gaúchas, as brasileiras que mais sofrem com a doença, são, felizmente, as melhores diagnosticadas, diferentemente das piauienses que apresentam inversão nos índices: menores incidências, mas maiores taxas de mortalidade. O secular desprezo que o Piauí dedica ao Sul do Estado em políticas públicas para a saúde, sejam estabelecidas por gestores sejam na participação da distribuição dos recursos e ações do SUS, transforma nosso Estado num dos piores índices de mortalidade do país. Assim, paradoxalmente, temos curado muitos casos no Piauí, mas somente as mulheres que tiveram acesso ao diagnóstico precoce. As campanhas e ações efetivas de acesso ao diagnóstico e ao tratamento da doença permitem que as mulheres com boa formação educacional busquem os cuidados pessoais para o controle da doença. Entretanto, numa cruel e discriminatória situação, uma gama de mulheres, notadamente à margem destas políticas, continuam a apresentar tumores imensos ao diagnóstico. O Sul do Estado tem um mamógrafo público em Floriano localizado no Hospital Tibério Nunes e outro em Bom Jesus, que nunca funcionou. Fora estes dois aparelhos, apenas outros dois particulares, em ambas as cidades, são a oportunidade para exame que as mulheres dispõem nestes recantos piauienses. Assim, em Floriano, evidenciamos que os médicos não estão, de fato, pedindo o exame para as mulheres, e em Bom Jesus, mesmo que assim procedessem, suas pacientes não poderão fazê-lo, pois o aparelho não funciona desde 2002 quando foi instalado. As ações de saúde tem sido um flagelo. Até quando esta injustiça da saúde será propagada? Será que um dia teremos que apontar os responsáveis que determinaram a morte destas mulheres porque políticas públicas infelizes têm sido aplicadas sobre uma doença que já apresenta bons índices no resto do mundo? *Médico/Diretor do Instituto de Mama do Piauí
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